A ambiguidade dos pronomes de terceira pessoa

, 3 de dezembro de 2011

Está rindo aí, né? Eu sei que você riu. Sorriu, pelo menos. Agora explique: por quê?

Acontece que o seu guarda não interpretou a frase do presidiário como esperado. A explicação para isso é o simples fato de que o seu guarda é um fanfarrão? Hum....

Uma questão de interpretação

A quem o presidiário queria dizer que amava? À família. “Família” é um substantivo feminino no singular, mesmo que saibamos que  ele representa um grupo de pessoas. *

Qual pronome o presidiário usou para substituir "família", no 2º quadrinho? “Eles”. “Eles” é um pronome masculino no plural.

Como funcionam os pronomes

Gente, um pronome precisa concordar em gênero (feminino/masculino) e grau (singular/plural) com o substantivo que está substituindo, senão a comunicação não acontece, vira uma torre de babel.

Se eu digo “O povo estava enlouquecido vendo os carros de Fórmula 1, eles gritavam e balançavam bandeiras”, vocês podem me dizer: “Mas, heim, ô, que carros modernos, né, até falar já falam...”.

A menos que eu esteja falando do filme “Carros”,  já deu problema na comunicação.

Ao ler “eles”, automaticamente procuraremos um substantivo masculino no plural para ver a quem o pronome está se substituindo, mesmo que digamos não saber nada de gramática. Isso porque o cérebro dos usuários de uma determinada língua, como acontece conosco quanto à língua portuguesa, automaticamente identifica algumas regras.

Vocês sabem mais do que pensam que sabem, meus caros.

Procurando no diálogo presente nos quadrinhos, qual substantivo masculino no plural achamos? “Crimes hediondos.”

Foi aí que o presidiário se ferrou (se é que tinha como se ferrar mais do que já estava ferrado), pois o que ele disse leva exatamente à interpretação que teve o seu guarda-eu-não-sou-vagabundo-não-sou-delinquente-sou-um-cara-carente.

Ambiguidade: existiu ou não existiu?

O que vemos, então, na fala do presidiário, é um problema de ambiguidade? Hum.... O que você acha? Pois não é!

Uma ambiguidade permite mais de uma interpretação, e a frase do moço de listrado, ainda que leve o ouvinte/leitor a interpretar uma mensagem completamente diferente daquilo que era pretendido, é bem clara; não se poderia imaginar, gramaticalmente falando, que ele se referia à família.

Por isso eu sempre digo: o que queremos dizer/escrever pode sair bem diferente daquilo que dissemos/escrevemos de fato.

Cuidado com as palavras, minha gente. E com fanfarrões, claro.

* Esse tipo de substantivo chamamos de “substantivo coletivo”, como "povo", "multidão", "turma", "gangue"  e, mais moderno e coloquial, e tchutchucante, o "bonde", por exemplo.

Para memorizar, lembrem do ônibus, o “coletivo”, em que cabe um monte de gente, mas é um só. ;)


Escrito por Janice Souza,
em 3 de dezembro de 2011.
Foto de Janice Souza