Quer ter um livro de qualidade? Siga estes passos

Saiba um pouco mais sobre o processo editorial e a importância dele na produção de um livro.

, 28 de agosto de 2015

Você sabe por quais etapas e pelas mãos de quais profissionais um livro passa até chegar à livraria? Talvez você já tenha ouvido falar de editores, preparadores, diagramadores, revisores, capistas e diversos outros profissionais que trabalham duro para fazer com que aquele objeto simples, mas de desejo de muitos, fique pronto para ser lido, relido, cheirado, rabiscado, emprestado, esquecido e lido novamente.

Com este post não pretendo fazer uma análise profunda do que é o objeto livro. Este texto é até simples demais, mas busca preencher uma lacuna que nós aqui do blog percebemos já faz algum tempo: fala-se muito de livros, leitores, feiras literárias e lançamentos, mas pouca gente sabe como de fato um livro é feito e por quem ele é feito. Mais que isso: por que é importante conhecer o processo de produção do livro?

A resposta é que isso depende de cada pessoa: o leitor pode se interessar pelo assim chamado processo editorial apenas por curiosidade; um autor pode querer conhecer o processo para saber quem vai mexer em seu texto (e de que forma vai mexer, quanto isso pode custar, quanto tempo pode levar) e, assim, evitar surpresas; um revisor pode (e talvez deva) aprender sobre o processo para poder oferecer um melhor serviço a algum autor que o procure ou para que possa enfim trabalhar naquela ótima editora com mais familiaridade, conhecendo bem o processo.

Como fazer um livro?

A questão é que quanto mais todos os envolvidos (autores e tradutores, editores, preparadores, revisores, diagramadores e até leitores) souberem sobre como um livro é feito, os processos podem se tornar melhores e mais qualidade final tem o livro.

Se você é autor, fique ligado neste post, pois ele pode ensinar muito e preparar você para saber o que é de fato publicar um livro; ou, sendo mais específico, pelo que seu livro vai passar até chegar o momento de ser impresso.

Vou descrever aqui o processo editorial em etapas; entretanto, pode ser que em muitos casos algumas dessas etapas estejam sobrepostas, ou seja, ocorram ao mesmo tempo. Procurei descrever de forma genérica como seria o processo mais ideal de produção do livro; mas tenha em mente que no mercado editorial há de tudo, até mesmo quem desrespeite totalmente essas etapas e faça os passos quase que ao contrário. Além disso, há projetos específicos que podem precisar de um processo diferente ou que podem inverter as etapas por necessidades diversas. Por fim, descrevi apenas as etapas de edição, digamos assim, ou seja, as etapas em que os profissionais lidam diretamente com o texto.

Autor ou tradutor

1ª etapa: produção do autor (original do autor) ou do tradutor (arquivo traduzido mais original, que pode ser o livro físico ou um PDF). O original/tradução pode ser um manuscrito, um material datilografado ou (como é mais comum hoje em dia) um arquivo do Word. No caso de tradução, o livro original (em inglês, por exemplo, que também pode ser chamado de original em língua estrangeira) geralmente acompanha todas as etapas abaixo; ou seja, ele é literalmente enviado junto com todos os outros materiais e passará pelas mãos dos profissionais nas próximas etapas. Por diversos motivos esse envio é necessário: o diagramador pode ter de se basear na arte ou em aspectos da diagramação do original e o preparador e o revisor geralmente precisam do original para tirar dúvidas e conferir diversos elementos e fazer comparações (o chamado cotejo com o original). Para livros traduzidos, caso o tradutor tenha usado alguma CAT Tool em seu trabalho, o ideal seria que o glossário (também em formato eletrônico) fosse enviado especialmente ao preparador e ao revisor, mas isso raramente é feito.

Editor

2ª etapa: edição – o editor pode trabalhar com o arquivo de Word ou com um arquivo impresso a partir do arquivo de Word (a primeira opção é mais comum). O editor vai analisar a obra, contatar o autor (ou o tradutor, se for o caso) e fazer recomendações gerais. Trata-se da etapa em que o contato com o autor/tradutor é mais próximo e um momento em que a obra pode sofrer mudanças profundas (até mesmo mudança do título, por exemplo). É provável que o arquivo vá e volte diversas vezes entre o autor/tradutor e o editor para adaptações e correções diversas. Depois de tudo mais ajeitado, o arquivo é enviado para a preparação.

Preparador de originais

3ª etapa: preparação – o preparador recebe então o arquivo (digital) do editor ou do gerente de projetos (ver abaixo); pode ser que o editor faça algumas recomendações gerais ou até mesmo crie um relatório que especifica quais são os elementos que devem receber mais atenção do preparador. Como o trabalho de preparação envolve muita pesquisa, na maior parte dos casos o preparador receberá a prova em Word; ou seja, ele precisa trabalhar num arquivo editável, pois provavelmente terá de fazer uma grande quantidade de alterações e ajustes, como excluir/mover parágrafos inteiros, fazer cortes, reajustar e renumerar figuras e imagens, etc. Mais especificamente, ele também fará alterações e adaptações diversas: aplicar normas específicas da editora, normatizar a obra de acordo com algum style guide ou manual, numerar (para a diagramação) elementos como títulos, figuras e tabelas (geralmente indicando onde elas entram com tags, ou seja, com códigos, por exemplo: <TÍTULO 1>, <FIGURA 3>, <box>, etc.), ele também deve desfazer incoerências e conferir dados diversos (datas, grafias de nomes próprios ou dar consistência à grafia dos nomes de personagens, verificar a factualidade de eventos históricos e notícias, etc.). Por fim, ele pode também criar um relatório para o editor da obra. Tendo feito tudo isso, é hora de passar para a próxima etapa.

Diagramador

4ª etapa: diagramação – o preparador envia o arquivo digital (Word) para o diagramador, que deve aplicar o projeto gráfico e diagramar toda a obra usando um software próprio (para livros, geralmente é usado o Adobe InDesign). Esse arquivo deve ser diagramado da melhor forma possível, ou seja, no sentido de que o livro fique o mais “finalizado” possível. Ele deve ficar praticamente idêntico ao livro que vemos nas livrarias. Depois disso, o arquivo digital (do diagramador) é impresso (geralmente em papel A4). É nessa etapa que esse documento passa a se chamar prova. A prova impressa é então enviada ao revisor de primeira prova. Ela pode/deve ir acompanhada do máximo de relatórios das etapas anteriores e, como acontece muitas vezes, vai acompanhada de uma versão impressa do arquivo de Word trabalhado pelo preparador: geralmente impresso de modo que mostre todos os balões da função Controlar alterações do Word (que, como sabemos, ficam na lateral da página); ou seja, o arquivo de Word do preparador é impresso de modo que todas as suas alterações fiquem claramente visíveis. Isso serve para que o revisor de primeira prova confira se elementos como itálicos, negritos, numerações, figuras, etc. foram efetivamente aplicados pela diagramação. Isso tudo é enviado ao revisor de primeira prova.

Revisor de primeira prova

5ª etapa: revisão de primeira prova – aqui chegamos à etapa que nós revisores mais conhecemos: o revisor de primeira prova pode estar alocado na editora, trabalhar de casa (freelancer) ou em uma empresa/editora terceirizada. De qualquer forma, ele vai receber tudo que foi especificado acima mais a primeira prova impressa (lembrando: livro já diagramado e impresso em papel A4). Ele deverá fazer a primeira leitura/revisão como já conhecemos (geralmente usando sinais de revisão) e, ao longo do trabalho, pode gerar também mais um relatório (que pode ser enviado ao revisor de segunda prova e aos outros membros da equipe).

Retorno ao diagramador

6ª etapa: diagramação/correção – essa é a etapa em que o diagramador recebe a prova revisada pelo revisor de primeira prova para aplicar as correções, algo mais conhecido como batida de emendas. A prova chega ao diagramador com todas as indicações do revisor (correções e sinais de revisão). O diagramador, logo, vai interpretar essas indicações e corrigir os erros/fazer ajustes no arquivo digital usando o software de diagramação. Ou seja, ele coloca a prova impressa de um lado da mesa e aplica as correções no arquivo digital, página a página. Depois disso, o arquivo digital (e corrigido) é impresso novamente. É a chamada segunda prova. Essa segunda prova é enviada ao revisor de segunda prova junto com a primeira prova (e, se necessário, com mais relatórios e materiais de suporte).

Revisor de segunda prova

7ª etapa: revisão de segunda prova – o revisor de segunda prova recebe a segunda prova impressa mais a primeira prova impressa. Isso porque ele deverá fazer (antes de tudo) aquilo que é conhecido como revisão espelhada (ou batida de emendas): ele vai verificar se as correções da primeira prova foram efetivamente aplicadas na segunda prova pelo diagramador; se não foram aplicadas, o revisor de segunda prova deve fazer isso agora. Só depois de fazer essa verificação inicial é que ele vai de fato revisar a segunda prova (que pode conter menos erros ou não, dependendo do esforço/atenção/trabalho do revisor de primeira prova e da própria capacidade do revisor de segunda prova). Quando terminar seu trabalho, o revisor de segunda prova a envia ao diagramador para nova correção.

Retorno ao diagramador

8ª etapa: diagramação/correção – a segunda prova impressa é enviada novamente ao diagramador; ele deverá novamente aplicar as correções indicadas pelo revisor de segunda prova. Essa etapa é semelhante à 6ª etapa descrita acima.

Revisor de terceira prova

9ª etapa: geração da terceira prova. Aqui a coisa fica mais gerencial. A editora deverá ter critérios para saber quantas provas podem ser geradas. Se a editora/cliente achar que é necessário gerar uma terceira prova para corrigir mais erros, ela é gerada. Acredito que, hoje em dia, a média seja no máximo (no máximo mesmo) três provas ao longo desse processo. Além disso, a terceira prova geralmente é gerada apenas para revisão espelhada com a segunda prova e então batida de emendas (e não para mais uma revisão propriamente dita). Depois disso vem a fase de impressão do livro.

Resumo do processo editorial

Original > Edição > Preparação > Diagramação > Revisão de 1ª prova > Diagramação/correção > Revisão de 2ª prova > Diagramação/correção > Geração de 3ª prova (ou tantas provas quanto necessário) > Impressão.

Observações:

  • As provas impressas podem ser substituídas por provas em formato PDF, algo que vem se tornando cada vez mais comum (veja o post em que falamos um pouco mais disso), ou ainda por um processo que adote o Adobe InCopy.
  • Gerente de projetos – em muitas editoras, esse papel é exercido pelo próprio editor. O gerente de projetos (ou, ainda, coordenador) está na verdade envolvido em várias etapas. Assim como o editor, ele é uma espécie de “ponte” entre todas as etapas acima, mas o fato é que ele está mais presente em grandes editoras ou editoras terceirizadas. Ele é responsável por gerenciar o recebimento e envio de provas (por exemplo, entre a editora-cliente e a editora terceirizada), gerenciar prazos, contratar freelancers, tirar dúvidas entre revisão-diagramação-tradução e diversas outras tarefas. Ele pode também conferir rapidamente toda a prova para verificar se o revisor não esqueceu de algo importante ou se não deixou passar um erro grave (como um título errado na capa, por exemplo).
  • Em alguns casos pode entrar no processo a etapa de copidesque, que seria a conferência de aspectos estruturais e mais formais do texto. Na produção de livros, esse papel geralmente é desempenhado em parte pelo editor e em parte pelo preparador.
  • Especialmente com livros é muito importante diferenciar preparação e revisão por diversos motivos. O principal motivo que eu poderia ressaltar aqui é que, ao misturar preparação e revisão (ou seja, geralmente pulando a etapa de revisão, acreditando que uma “revisão no computador” basta), a etapa de conferência de elementos gráficos feita pelo revisor (na prova impressa/digital) é negligenciada, e isso pode causar problemas diversos.

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Escrito por Allan Moraes,
em 28 de agosto de 2015.
Paulistano, divide o tempo entre tentar aprender línguas, livros de filosofia e o trabalho como revisor freelancer.
Foto de Allan Moraes