Sugeri à Carol este post com a ideia de trazer aos escritores uma amostra do que temos como modelos de bons textos. Mais que isso, a ideia também é mostrar livros para quem quer escrever que trazem boas recomendações e reflexões sobre a escrita e sobre ser escritor.

Não são, contudo, recomendações de gramáticas, manuais e dicionários; tampouco livros sobre regras, linguagem e pontuação. Isso temos de sobra.

São livros com ideias que podem formar melhores autores; afinal, nós revisores somos seus leitores mais apaixonados. A não ser pelo próprio autor, ninguém sofre, sua e se sente orgulhoso pelo texto de um autor tanto quanto nós. Não é por acaso que muitas vezes nossos nomes vão lá nos créditos (em letra pequena, e quase ninguém lê, mas estão lá).

1. Platão, Fedro

Platão transformou a antiga sabedoria encarnada, viva, em “sofografia”, ou seja, em escritos sobre os sábios e a sabedoria; e não deveríamos ficar surpresos ao saber que aquele que transforma a palavra viva em discurso escrito tivesse consciência desse problema e de suas (talvez boas, talvez más) consequências.

O Fedro é tido como um diálogo sobre amor e amizade entre as diferentes gerações dos homens de Atenas, mas para mim o cerne dele é a expressão escrita, tema que Platão raramente aborda e critica (a não ser talvez pela Sétima Carta).

A paixão de Fedro

É verão em Atenas, e os corações dos jovens suspiram. Fedro é um desses jovens; entretanto, ele suspira não apaixonado por Lísias, grande orador ateniense, mas pelos discursos escritos de Lísias. É uma paixão intelectual, em que o amor (eros) se torna para ele só um tema, um motivo para bater um papo. E quem melhor que Sócrates para bater um papo em Atenas? Sócrates surpreende Fedro fora dos muros: “De onde vens e para onde vais?”. Fedro vem da casa de Lísias, e traz escondida na manga uma cópia do discurso de Lísias sobre o amor.

E assim, apenas com esses elementos, Platão tem o suficiente para discorrer sobre os deuses, a alma, Eros e o lógos (ou a expressão escrita).

Quando o diálogo — entre o jovem indeciso com sua paixão intelectual e o velho filósofo dialético e cético — em torno de Eros e do amor acaba, é estranho que Sócrates e Fedro comecem a tratar de assuntos mais mundanos: o texto escrito e a retórica. Mas Fedro é a resposta: é ele o tema desse diálogo platônico; e, como vimos, Fedro está apaixonado por discursos escritos.

Sócrates sabe que essa é uma paixão perigosa. Ele sabe que essa paixão pode arrastar o jovem para longe. E agora é a hora de Sócrates tentar salvar essa jovem alma. Ele faz isso ao mostrar o contraste entre a palavra viva, a dialética, e a palavra morta, o discurso escrito, o texto retórico.

O texto escrito é cego, surdo e mudo

Sócrates é cruel e sem compaixão nessa disputa: o texto escrito é cego, surdo e mudo, pois quando alguém escreve, escreve para outro alguém desconhecido, fora de seu contato, distante. O método socrático é o oposto da palavra morta: Sócrates ajusta seu discurso, enquanto dialoga, de acordo com cada interlocutor e de acordo com as angústias e paixões de cada um de seus parceiros e amigos filósofos. Nesse sentido, a dialética é uma troca em que cada resposta é um presente dum amigo que é, como você, um amante da sabedoria.

Já aquele que escreve geralmente coloca apenas problemas e obstáculos diante do leitor. O livro é, para o leitor, um presente cruel, pois o texto não pode responder às dúvidas e inquietações daquele que lê e daquele que, como Sócrates e todos nós, é fiel ao comando do oráculo de Delfos: conheça a ti mesmo.

palavras escritas nunca podem substituir a vida

Escritos pomposos e o prazer em lê-los são um perigo para aquele que quer conhecer a si mesmo: palavras escritas nunca podem substituir a vida, e é disso que a literatura – mais que qualquer outra arte – se ressente, pois aquele que escreve sempre precisa se afastar da vida para poder descrevê-la.

Para que escrever? E por que Platão escreve então? Minha resposta aqui teria de ser platônica: escrevemos talvez apenas para nos lembrarmos daquilo que já temos gravado em nossa alma. Além do comando délfico, talvez este deva ser o segundo comando dum escritor para si mesmo.

2. Schopenhauer, A arte de escrever

Schopenhauer dá nessa obra talvez o conselho mais inatual, mais cruel e fora de moda e da tendência literária que vemos hoje. Ele começa já dizendo que há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. O primeiro tipo escreve para se expressar; o segundo, por dinheiro (ou fama).

Disso deduzimos que “escrever bem” (ou simplesmente “escrever”) significa antes de tudo (aprender a) pensar bem, a meditar – para que então tenhamos algo a dizer e a expressar. Isso vai contra a tendência atual de aconselhar futuros escritores a “apenas começar a escrever”, a “apenas dar o primeiro passo”, a “colocar as ideias no papel” ou “largar a TV e ler tanto quanto possível”. Posso ver mais rugas surgindo na testa de Schopenhauer só dele ouvir alguém dando conselhos desse tipo.

“escrever bem” significa aprender a pensar bem

Apesar de toda a aparente rabugice de Schopenhauer, o bom leitor do A arte de escrever pode colher desses aforismos conselhos breves mas certeiros (especialmente quanto à estilística) para se tornar um escritor com menos vícios e mais ideias originais – além de perder menos tempo nessa atividade, pois Schopenhauer dá as armas para quem quer caçar as próprias ideias. Colocá-las no papel dependerá apenas do autor.

3. Primo Levi, 71 contos

Primo Levi é mais lembrado como um autor daquilo que ficou conhecido como “literatura de testemunho”, já que se tornou famoso quando relatou sua experiência como prisioneiro judeu em Auschwitz em seu É isto um homem?, de 1947.

A primeira vez que entrei em contato com Levi, entretanto, foi por meio da ficção: 71 contos (lançado no Brasil pela Companhia das Letras com excelente tradução de Maurício Santana Dias) reúne três dos livros de “ficção” de Primo Levi:

  • Histórias naturais (1966);
  • Vício de forma (1971); e
  • Lilith (originalmente L’altrui mestiere, ensaios de 1969-1985).

Mudança de gênero literário?

A princípio pode soar estranho falar de um autor que relatou as calamidades da guerra e do totalitarismo e que, sem aviso, passou a escrever ficção científica, gênero literário que talvez apenas nas duas últimas décadas tenha começado a receber a devida atenção por parte da crítica literária no Brasil.

Mas entre Auschwitz e a ficção científica existem menos mistérios do que sonham os críticos literários, e Levi mesmo disse que entre as experiências do Lager e essas “invenções” e ficções existe uma ponte, uma continuidade.

A ficção científica de Levi

O problema é que a ficção aqui não é, como parece à primeira vista, uma experimentação, um treinamento ou capricho dum não escritor que quer brincar com diferentes estilos e modos de escrever histórias. De modo mais geral, tampouco é ponte para um mundo utópico, mais positivo, como esperança ou superação dum passado aterrador e desumano. Pelo contrário — a ficção científica de Levi é também uma sequência de perspectivas sobre aquilo que podemos chamar de “condição humana”: a incerteza não só quanto ao nosso futuro e à nossa história, mas também quanto à techné, ou seja, as criações humanas, a tecnologia. Afinal, os campos de concentração e as câmaras de gás não se tornaram realidade apenas como criação de mentes perversas, mas (e devemos nos lembrar disso) graças também às ciências naturais, à eletricidade, ao petróleo e aos computadores.

Os contos de Primo Levi são para mim a expressão dessa incerteza e desse pathos trágico da existência; de como a arte literária é mais verdadeira e essencial quando expressa a condição humana – seja como relato pessoal, histórico e biográfico, seja como ficção.

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