O livro: manual de preparação e revisão, de Ildete Oliveira Pinto

A fim de conhecer um pouco sobre obras que tratam da revisão de textos? Sim? Para isso, resolvemos escrever algumas resenhas de textos importantes para a área da revisão. O objetivo? Simples, contribuir ainda mais para a sua formação.

, 27 de fevereiro de 2019

O livro: manual de preparação e revisão, de Ildete Oliveira Pinto, foi publicado pela Editora Ática em 1993. É um texto resultado da experiência do autor – preparador de textos – na respectiva editora, conforme diz a apresentação da obra.

Este manual propõe-se a expor as técnicas e normas de preparação e revisão de textos. Sua finalidade é orientar as pessoas que trabalham ou pretendem trabalhar na área, mas parece ter, hoje, mais valor histórico que prático.

Um livro com valor histórico

Tal afirmativa se embasa – para citar um exemplo – no fato de sua publicação estar separada por um quarto de século desta resenha, num momento em que a informática ainda engatinhava dentro das editoras. Todavia, sendo nosso objetivo mapear textos que definam em algum nível a atividade do revisor e o que é revisão de textos, não poderíamos deixar de lado uma obra tão importante como essa.

Desde a introdução, o Manual de preparação e revisão entende que a liberdade do autor para produzir sua mensagem é inegável e ele é quem dá a última palavra sobre a obra. Entretanto, por vezes o escritor se preocupa mais com o conteúdo que com a forma do material textual, sendo neste nível específico que devem agir editor, preparador e revisor.

Os papéis dos profissionais do texto

Em cada tipo de texto, esses profissionais deverão atuar de determinada forma, valorizando o estilo do escritor sem infringir sua liberdade. Nesses termos, conforme Ildete, “pode-se dizer que este livro é um manual de estilo, cuja preocupação maior é sistematizar as normas editoriais aplicáveis com maior frequência” (p. 5).

Como manual de estilo que apresenta um padrão editorial para diversos tipos de textos, o livro traz as principais etapas do processo de editoração. Esta atividade abarca três momentos: pré-industrial, industrial e pós-industrial, estando a preparação e a revisão de textos presentes nos dois primeiros.

A diferença entre preparação e revisão

É preciso aqui distinguir preparação de revisão textual. A primeira abrange as atividades de organização, normalização e revisão dos originais (original é o material entregue pelo autor à editora que resultará no livro), ocorrendo na fase pré-industrial. A segunda abrange a revisão de provas e se dá na fase industrial – depois da diagramação e antes da impressão.

Embora essa distinção se mostre um pouco confusa e possa ser explicada de forma mais contemporânea (preparação é o que ocorre antes da diagramação, revisão é o que ocorre depois dela), o entendimento proposto por Ildete aponta para uma noção de revisão de textos como atividade bastante ampla.

De maneira resumida, compete ao preparador de originais verificar:

  1. a ortografia;

    Aqui encontramos outro exemplo do valor histórico do manual de Ildete, pois ele aponta como uma das fontes de verificação o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras, e fornece ao seu leitor o telefone dessa instituição para o revisor tirar dúvidas – atualmente, a ABL fornece de maneira integral e atualizada uma versão online do Volp.

  2. a pontuação;

  3. o vocabulário e as repetições de palavras;

  4. as ambiguidades e outros vícios de linguagem;

  5. os fatos sintáticos;

  6. a abertura de parágrafos;

  7. a coerência.

Esses pontos, listados no primeiro capítulo, referem-se ao que podemos chamar de uso adequado da língua portuguesa, levando-se em conta as características do gênero e as escolhas do escritor – “árbitro por excelência das questões suscitadas em sua obra” (p. 11). Ainda, compete à etapa pré-industrial de produção do livro toda uma lista de procedimentos que dizem respeito à normalização (padronização) do texto a ser publicado.

Tais procedimentos – que designo como sendo de normalização e padronização – ocupam a maior parte da obra de Ildete. Isso nos permite depreender que a atividade do preparador/revisor vai além da análise das convenções meramente linguísticas.

Procedimentos de padronização do texto

De maneira bem resumida, eles tocam em pontos como:

  • as imagens presentes no texto e o modo de referi-las;
  • as seções do texto e sua importância na organização da informação;
  • as formas do discurso utilizadas e o papel da pontuação em sua construção;
  • o uso de iniciais maiúsculas e minúsculas; a grafia e a flexão de nomes próprios, bem como de numerais;
  • a divisão silábica e sua implicação no material impresso;
  • o uso de abreviaturas, siglas e símbolos; o modo de introdução de citações e notas;
  • a construção das referências bibliográficas;
  • o uso de hífen, itálico e outros padrões complementares.

O manual descreve ainda as partes do livro e de seus principais elementos, deixando claro como devem ser construídos. Além disso, traz apêndices com os principais sinais utilizados tanto na etapa de preparação quanto na de revisão de provas. Tudo com a finalidade didática de instruir tanto quem trabalha na área editorial como quem pretende entrar nela.

O que faz um revisor de textos

Por fim, gostaria de especular sobre a definição do que é revisão de textos para Ildete Oliveira Pinto. No capítulo 15, ao tratar da revisão de provas, o autor diz que a palavra “revisão” apresenta grande carga de significação. Todavia, no manual, ela é aplicada especificamente ao revisor de provas. Este teria – o verbo está no condicional – por incumbência “o cotejo da prova com o original sem compromisso com o conteúdo do texto e limitado apenas aos erros tipográficos” (p. 123).

Arrisco dizer que o verbo na forma condicional se justifica pela dificuldade em definir o que é de fato revisar um texto: atividade que aparece tanto na etapa de preparação quanto na de revisão de provas. Entretanto, fica claro seu esforço em separar as funções do revisor de textos nesses dois momentos de produção do livro. Nesse sentido, se há algo que O livro: manual de preparação e revisão nos ensina sobre o perfil do revisor, é sua amplitude.

Onde encontrar o Manual de preparação e revisão

O Manual de preparação e revisão infelizmente parece ser um livro esgotado, então é possível que se encontre em sebos.

Você ainda pode comprar o Manual de sobrevivência do revisor iniciante!


Sobre esta série

Há diversos outros livros sobre revisão de textos. Nem sempre o objetivo deles é definir diretamente a atividade, entretanto praticamente todos a descrevem em algum nível. Conhecer essas #teoriasdarevisão é uma das formas de o revisor compreender melhor sua própria atividade, podendo assim melhorá-la.

Autor

Marcos Vieira de Queiroz

Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Ouro Preto. Revisor desde 2013, quando se graduou em Letras pela mesma instituição. Pesquisador e autor de textos sobre a área, o campo, o mundo etc. da Revisão de Textos (com maiúscula).


Escrito por Revisão para quê?,
em 27 de fevereiro de 2019.
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