O que define um revisor de texto profissional? (Parte 2)

O revisor de texto profissional aprofunda conhecimentos e traz à tona novas habilidades. Veja mais cinco dicas neste segundo post.

, 24 de fevereiro de 2015

Devemos ter em mente que “profissionalismo” ainda é um conceito importante dentro de cada área e é algo que envolve desde capacitação e ferramentas/meios usados pelo revisor de texto profissional até coisas como talento e ética profissional.

Saber disso evita que fiquemos simplesmente boiando em nossas tarefas diárias, que executemos ações e decisões mecanicamente ou que empurremos com a barriga ou deixemos ao acaso tudo o que pode nos definir como revisores de texto profissionais.

Vamos então às últimas cinco dicas ou leia a parte 1 aqui.

Sinta-se valorizado

Sempre reconsidere os valores cobrados, quanto está ganhando e quanta experiência está adquirindo, bem como a qualidade do serviço que você tem oferecido.

Há muitas discussões sobre quanto um revisor deve cobrar por este ou por aquele trabalho; quanto a agência X, a Y e a Z pagam; quanto as editoras pagam por lauda/página e qual seria o valor ideal.

Entretanto, o ponto mais importante talvez seja simplesmente contribuir nesses debates e acompanhá-los sempre que possível. Leve-os em consideração para traçar suas próprias metas em paralelo com outros fatores, como sua experiência, seus diferenciais, sua área e a situação econômica em geral. Defina seu valor e aplique-o com firmeza.

Coloque-se no lugar do cliente

Por outro lado… sempre coloque-se também no lugar do cliente. Por piores que tenham sido suas experiências na área, trabalhando muito e ganhando pouco, saiba que muitas vezes uma boa oportunidade pode ser perdida porque você pensou que aquele ótimo cliente era apenas “mais um daqueles clientes” e acabou tratando-o sem a devida atenção.

Trate-o bem, com ética, paciência e atenção. O cliente não é um inimigo: se ele está procurando um profissional, é porque acredita que você possa resolver os problemas dele (da mesma forma que você procura outras pessoas que resolvam seus problemas). Novamente: ofereça mais e exija menos.

Comece com dois passos simples:

  • Estruture sua comunicação: seja objetivo, pontual e esteja à disposição. Mantenha atualizados seus modelos de orçamento e respostas-padrão, bem como sites, e-mails, telefone e qualquer meio pelo qual seu cliente entrará em contato com você.
  • Não se perca na rotina: mantenha em mente que você poderá gastar mais tempo do que previu com certo material ou cliente. Separe seu tempo para trabalhar, para comer e tomar banho, para escrever para seu blog (ou ler o nosso), para relaxar e dar aquela olhada no Facebook.

Pergunte, pergunte e pergunte de novo

Obviamente, é responsabilidade do cliente fornecer o máximo de informações possíveis sobre o material que você irá revisar. Não é função do revisor ser vidente e adivinhar que, por exemplo, o livro de certo autor é diagramado de forma totalmente diferente do usual que escapa a diversas regras da editora e de seu manual de padronização e estilo.

Entretanto, diante de qualquer problema do tipo, todo cliente vai preferir mil vezes que você ligue e mande e-mails perguntando sobre coisas estranhas no material a que você pressuponha soluções e faça alterações que possam estragar todo o trabalho.

Tanto revisores quanto preparadores, coordenadores e gerentes de projetos, bem como clientes e redatores, devem estar sempre com boa disposição para responder a dúvidas de colegas. Um livro, uma peça de marketing ou um panfleto não se fazem sozinhos e ninguém é o único dono de um material. Em suma: trabalho em equipe é igual a comunicação em equipe.

Por outro lado, seja direto e educado

Formule suas dúvidas de forma clara, direta e sucinta. Separe prioridades na comunicação.

Ninguém é obrigado a responder coisas óbvias, por isso, pesquise (sites, gramáticas, fóruns) e pense se aquela pergunta realmente deve ser feita ou se é tão urgente. Como revisor, você tem autonomia para resolver muitos problemas e nem sempre precisa da aprovação do cliente ou do coordenador. Se não estiver se sentindo confiante, sugira a verificação daquilo que julga estranho no material.

Dê o máximo de opções possíveis para a solução de um problema ou dúvida. Entretanto, se tiver de redigir um relatório final, faça uma lista sucinta. Evite digressões, explicações e referências usando 16 gramáticas e 10 manuais, bem como piadas, indiretas ou exigências que não tenham nada a ver com o que está sendo feito; como solicitar, no relatório de revisão, algum pagamento atrasado — isso parecerá esperto, mas pode ser um tiro pela culatra para sua imagem como profissional.

A forma como você comenta também é importante

Acima de tudo, evite CAIXA ALTA e exclamações!!! em comentários ou qualquer coisa do tipo. Eu sempre detestei receber, de quem quer que fosse, comentários ou indicações com letras gigantes e exclamações. Isso não deve partir nem de chefes nem de clientes, e menos ainda do revisor, seja ele coordenador ou subordinado.

Você pode achar que é o único que não erra, mas você nunca saberá se ninguém indicar seu erro. E indicar o erro a um colega com expressões como “VOCÊ NÃO VIU QUE ESTA VÍRGULA ESTÁ SEPARANDO SUJEITO DE PREDICADO???!!!” ou dizer a um cliente “P.S.: O ÚLTIMO PAGAMENTO ESTÁ ATRASADO EM 15 DIAS!” sempre parecerá mal-educado e nada profissional. Em vez de ensinar ou informar, parecerá que você quer apenas se impor. E lembre-se: o mundo editorial, bem como o de marketing e tradução, é pequeno.

Você não é o Super-Revisor de texto

Seja humilde: se errou, admita. É mais honroso e honesto que buscar mil justificativas. Se você errou, perdeu o trabalho ou está atrasado, se você foi escrachado pelo cliente ou chefe por qualquer um desses motivos e depois viu que na verdade estava certo ou não havia problema algum ou nenhuma responsabilidade sua, deixe para lá.

“Mas o cliente me deu um prazo apertado!”
“Mas meu chefe me deu um arquivo com um texto péssimo!”
“Mas fui abduzido e tive de fugir do zoológico de Tralfamadore onde os ETs me enjaularam!”

Não importa.

Peça desculpas e deixe passar. Você não ganhará um aumento se justificando e pode nunca convencer o “acusador” de que estava certo ou de que não havia erro algum.

Se o erro foi grave (e se foi realmente um erro) e o cliente quiser que você ressarça o valor pago, faça isso. Você terá menos dores de cabeça e lucrará mais do que se o cliente quiser mover um processo ou algo do tipo. Ele terá de volta o pagamento que havia feito e se sentirá menos lesado; você, por outro lado, preservará sua honra e imagem como profissional (além de se estressar menos).

Peça desculpas

Seja sincero e peça desculpas pelo erro. Deixe que o cliente saiba que você está disposto a ajudá-lo caso puder. Se não houver conserto, demonstre que você está ao menos à disposição. Em outras palavras: não suma de vista nem se finja de desentendido!

Todas essas coisas passam com o tempo e nunca li no jornal que um editor morreu por causa de um erro de revisão. Todos, mais cedo ou mais tarde, terão outros problemas para resolver.

Entretanto, lembre-se do seu erro, analise-o com calma e refaça o trajeto para saber por que errou. Encontre meios para evitar cometer o mesmo erro. Para isso, uma boa dia é refazer exercícios gramaticais e ler mais sobre o assunto. Acredite: muitos problemas podem ser evitados com a ajuda da tecnologia.

Suas ações devem ser friamente calculadas

Podemos concluir que pensar em profissionalismo e em sua definição é se tornar consciente do que fazemos como revisores profissionais em vez de nos deixarmos levar (sem saber para que e para onde) por fatores externos diversos. Podemos ver que é um aprendizado contínuo e a confiança exagerada pode ser na verdade algo muito negativo. Reveja sempre cada ação no seu dia a dia.

Espero que essas dicas tenham servido a todos — estudantes, profissionais iniciantes ou experientes e curiosos em geral.


Escrito por Allan Moraes,
em 24 de fevereiro de 2015.
Paulistano, divide o tempo entre tentar aprender línguas, livros de filosofia e o trabalho como revisor freelancer.
Foto de Allan Moraes