O que define um revisor de texto profissional? (Parte 1)

O revisor de texto profissional aprofunda conhecimentos e traz à tona novas habilidades. Vamos ver como isso funciona na prática?

, 20 de janeiro de 2015

(Leia a parte 2 aqui)

Vejo quase diariamente, em fóruns e grupos, algumas boas discussões (e gostaria de ver mais) entre revisores sobre questões profissionais diversas. Mas o que me parece ser a questão fundamental é aquela relacionada à definição do profissional e de profissionalismo.

Ambos são termos e conceitos muito abrangentes. O conceito de “profissionalismo”, em especial, é tomado como algo dado, sendo propagandeado e divulgado aos quatro cantos, em sites, currículos e seleções para vagas, mas pouco se discute sua real definição.

Obviamente, seria impossível definir profissionalismo em relação a diversas áreas, como medicina, advocacia, engenharia, pedagogia ou paisagismo. Cada área e profissão tem problemas e soluções diferentes para diferentes necessidades e dificuldades humanas.

Então o que tentarei fazer neste post será traçar alguns tópicos que ajudem a definir o revisor de texto profissional ou o profissionalismo na área de revisão de textos. Vamos lá!

Leia, leia e leia mais

Isso significa dizer: leia tudo! Não importa que seja o Twitter, um blog, Proust ou o jornal do seu bairro. Muitos revisores podem se ver limitados quando se deparam com um novo tipo de material e sua linguagem. Imagine um revisor que trabalha por dez anos só com alta literatura de ficção e que se vê, de repente, incumbido de revisar artigos de um site de games e tecnologia. Embora especialização seja importante, mais importante ainda é ser minimamente capaz de migrar de um tipo de texto para outro, de saber ler e entender a linguagem mais simples e a mais erudita, estar confortável tanto entre materiais de propaganda e marketing quanto entre romances e poemas.

Esteja on-line

Se você quiser se tornar freelancer, terá de encontrar clientes ou deixar que eles te encontrem. O trabalho não virá facilmente até sua mesa ou ao seu e-mail. Sendo assim, hoje em dia não existe mais a questão de gostar ou não de estar on-line, nas redes sociais ou num site. É apenas questão de onde você está. Minha sugestão é que você esteja onde for possível ou ao menos onde os clientes vão procurá-lo. Recentemente comecei a trabalhar com um cliente de tradução que tira minhas dúvidas e me informa diversas coisas por WhatsApp. Ele poderia fazer isso por diversos outros meios, mas esse é o melhor meio para ele. Eu não usava o aplicativo — passei a usá-lo.

Cada vez mais clientes e contratantes desejam saber com quem estão trabalhando; e isso é ainda mais essencial quando cliente e revisor não moram na mesma cidade (ou até mesmo quando moram na mesma cidade); e o cliente sabe que a internet é o melhor meio para isso.

Se você não está por dentro do que ocorre na internet, é bem provável que seu cliente imagine que você não a domina ou não lhe pareça tão profissional.

Seja ético

Descubra se o cliente tem um código de conduta, de sigilo ou qualquer código do tipo. Se não souber, pergunte. Você não apenas saberá a resposta como parecerá mais ético aos olhos dele, mesmo que não haja código algum.

Não saia por aí falando de pessoas e empresas e como elas fazem ou deixam de fazer seu trabalhos, pagamentos ou obrigações (mesmo que muitas vezes os revisores sejam sempre julgados) — não faça isso nem no seu mural do Facebook, nem em fóruns e grupos, nem em grupos de WhatsApp, no Twitter, no seu blog, nem em qualquer lugar. Em grupos e fóruns, evite dar indiretas ou fazer piadas sobre temas polêmicos como política e religião. Separe cada lugar para cada assunto.

Lembre-se de que para solucionar qualquer problema existe o sistema legal e judiciário; e ele será muito mais efetivo para resolver conflitos do que perder tempo tentando mostrar a outros profissionais e colegas o quanto você foi lesado. E, embora possa parecer gentil alertar outros colegas quanto a maus pagadores, empresas que atrasam pagamentos e dão calotes de todo tipo, lembre-se de que você pode correr sérios riscos legais por difamação.

Se você acha que deve alertar um colega, faça-o de forma privada, por e-mail ou telefonema, e nunca em fóruns, redes sociais ou publicamente.

Algumas prescrições breves:
–  Não ignore atrasos em pagamentos, mas seja sempre educado e paciente.
–  Não venda ou faça propaganda de serviços que não domina: se você não sabe transcrição de áudio, não finja ou minta ao cliente dizendo que sabe; o mesmo para tradução, preparação, edição, etc. Venda os serviços que você domina e aprenda aquilo que não domina.
–  Não finja fazer parte de uma grande empresa de revisão: se você é um único freelancer, ofereça seus serviços usando seu nome, mesmo que tenha CNPJ e emita nota fiscal; de fato, muitos clientes podem preferir um serviço personalizado, mais direto e “humano”, do que imaginar que estão trabalhando com funcionários que nunca conhecerão direito. Já ouvi histórias de freelancers que usam secretárias eletrônicas com mensagens gravadas para fingir que são uma grande empresa (!).
–  Não transmita em redes sociais, grupos ou naquele workshop/curso de revisão ou de tradução a imagem do "Super-revisor": clientes adoram revisores confiantes (não me perguntem o porquê), mas em vez de admiração e respeito, você será conhecido entre seus colegas de profissão como pretensioso e egoísta e ficará cada vez mais restrito a um círculo fechado. Ajude os novos profissionais e pessoas inexperientes sem arrogância.

Converse com colegas e una-se a eles

Vejo muitos revisores reclamarem por não haver associações, entidades de classe ou sindicatos para revisores (não desejo entrar aqui num debate sobre sindicatos, leis trabalhistas nem nada do tipo); mas o que eles perdem de vista é que os benefícios que essas associações trazem não precisam ser obtidos apenas por meio delas.

Eu reparo também na enorme discrepância existente na comunicação entre profissionais da área editorial no Brasil e no exterior. Aqui faltam blogs, sites, grupos e comunicação. E isso não é culpa de ninguém a não ser da inércia dos próprios profissionais. Exija menos e ofereça mais.

Preocupe-se, claro, em conquistar clientes, mas preocupe-se também em descobrir e oferecer algo novo a colegas, clientes e parceiros. E isso pode ser feito de mil formas. A forma que nós do Revisão para quê? encontramos foi a de divulgar o que sabemos por meio deste blog que você lê agora.

Saiba que nada sabe

Não importa há quantos anos você revisa, prepara ou edita; não importa quantos cursos, graduações e especializações você fez; não importa para quantas e quais empresas e editoras você trabalhou: seus conhecimentos SEMPRE podem ser expandidos e melhorados.

Você sempre pode (e deve) aprender um pouco mais sobre diversos assuntos. Aí vai uma pequena lista:

– gramática (sempre! — e não apenas decorar aquela edição antiga, de 1998);
– línguas estrangeiras (quantas existem?);
– editoração, design e diagramação;
– novos softwares, ferramentas e tecnologias;
– tipografia;
– indexação;
– tradução e localização;
– projeto gráfico;
– clicheria, pré-impressão, impressão, rotogravura, offset, flexografia;
– arte-final;
– técnicas de redação;
– como fazer seu marketing e atrair clientes;
– direitos autorais.

E diversas outras coisas. Faça um workshop, curso ou aprenda algo on-line ao menos uma vez por ano. Você também pode aprender mais conversando com outros profissionais.

Profissionalismo parece algo que estamos sempre correndo atrás, algo que nunca se realiza totalmente. E em nossa área, como revisores, isso parece ainda mais difícil quando nos deparamos com nossos próprios erros e limitações e quando vemos o quanto falta para termos “domínio” sobre algo. Mas ainda veremos mais dicas.


E se você estiver interessado em saber mais sobre como ser um revisor de textos profissional, aguarde a segunda parte deste post e não deixe de participar da nossa pesquisa para o curso de revisão que vamos oferecer em breve.


Escrito por Allan Moraes,
em 20 de janeiro de 2015.
Paulistano, divide o tempo entre tentar aprender línguas, livros de filosofia e o trabalho como revisor freelancer.
Foto de Allan Moraes