Manual do revisor, de Luiz Roberto Malta

O Manual do Revisor, de Luiz Roberto Malta, é mais um clássico da literatura sobre revisão de textos sempre mencionados. Saiba mais sobre ele.

, 1 de outubro de 2019

A obra Manual do revisor, de Luiz Roberto Malta, publicada em 2000 pela WVC Editora, é fruto de 35 anos de atuação do autor na área editorial. Ela pretende ser um “guia profissional e realista para todos os que lidam com a palavra escrita destinada a ser impressa” (p. 11).

Embora o autor não defina um único público para o livro, visto este poder servir para revisores, copidesques, redatores, com níveis de experiência e objetivos profissionais diferentes, define muito bem o tipo de revisão abordada nele: “mostrar como se faz revisão para editoras de livros” (p. 15).

Entretanto, Malta ressalta que seu manual não deve ser tomado como um vade-mecum, ou seja, um resumo de gramática ou dicas de escrita e correção textual. Assim, podemos dizer que o livro tem um objetivo prático: “ensinar uma atividade profissional, de modo a abranger aspectos como ferramentas e móveis necessários, iluminação, relacionamento com os clientes e como cobrar” (p. 12).

Valor histórico do Manual do revisor

Malta não tem interesse em discutir a questão do “fim do livro”, a qual se mostra resolvida para ele, porque o livro está aí há séculos e pretende perdurar por muitos mais, mesmo com a crescente informatização da sociedade.

É interessante notar que, para o autor, a crescente constante no fluxo de informações divulgadas pelos canais de comunicação associada à diminuição do protagonismo dos revisores nas redações explicam a presença cada vez maior de “absurdos” em jornais – os quais não hesita em expor ao longo de todo o manual (p. 15).

Em resumo, para Malta o trabalho do revisor de textos abrange tanto o nível tradicional dessa atividade (ele fala da revisão de originais e provas) quanto a releitura de obras já publicadas, e até a revisão de heliográficas, que à época de publicação do manual já não eram tão comuns nas editoras. Além disso, como elemento histórico da obra, nos anexos do manual – há uma cópia integral do Acordo Ortográfico de 1990, uma tentativa clara de o autor mostrar-se atualizado (adiantado seria o caso) sobre esse debate, dado que o referido acordo estava previsto para entrar em vigor em 2009.

O que é revisão? E o que é copidesque?

Para Malta, existe diferença entre a revisão feita para editoras de livros e a de outros materiais – como textos, artigos, reportagens – a serem utilizados num jornal ou numa revista. Claro, todas essas modalidades exigem atenção, preparo e seriedade do revisor, todavia as edições de livros tendem a extrapolar o tempo de vida de quem as revisou – e parece ser esta a razão de se diferenciar esses “tipos” de revisão: os livros duram mais que determinados materiais midiáticos (p. 15).

Se por um lado revisar livros é diferente de revisar textos que não sejam de livros, por outro é preciso considerar que revisar um texto não é copidescá-lo, sendo este trabalho algo bem mais difícil e exigente do que o de revisar, pois copidesque “é – até certo ponto – reescrever, retrabalhar um original” (p. 16). No entanto, mesmo neste processo é preciso que o revisor reconheça seus limites e não queira assumir o lugar do autor, “embora – verdade seja dita –, no final, muitas vezes o que se lê representa o trabalho do revisor ‘podando’, aperfeiçoando, melhorando” (p. 28).

Requisitos para ser um bom revisor

Malta desenvolve um capítulo apenas para tratar dos “requisitos a serem preenchidos por quem se propõe a trabalhar em editoras” (p. 27), pois é este o seu nicho de mercado para a revisão de textos. Veja quais são:

  • Ótimo domínio do português; aqui se recomenda “um mergulho sério numa das diversas boas gramáticas” (p. 27) – o autor não nomeia nenhuma gramática específica em toda a obra.
  • Cultura geral e sempre estar bem informado – o revisor precisa ler muito e sobre quase tudo.
  • Humildade de duvidar de seus próprios conhecimentos, ou seja, deve recorrer a fontes de consultas dezenas de vezes ao dia.
  • Atenção e senso crítico sempre de acordo com o livro que se revisa.
  • Conhecimento de inglês e outras línguas – um diferencial para o profissional que pretende trabalhar com editoras.

O autor do Manual do revisor chega a apontar a necessidade de se dominar a informática, porque trata-se de conhecimento cada vez mais necessário profissionalmente, todavia alerta para que o revisor mais jovem “não se anime muito com conhecimentos técnicos” (p. 29). As razões dessa reticência quanto ao papel da informática como requisito para um bom revisor não ficam claras, mas podemos dizer que hoje (quase 20 anos depois) revisor que não dominar informática provavelmente não conseguirá colocação no mercado de trabalho.

Revisão de textos como atividade profissional

Embora considere que existam pessoas que exercem a revisão como um “bico”, Malta a entende como atividade profissional que deve ser exercida por pessoa capacitada para tal e procura em seu Manual do revisor dar conta da totalidade dessa discussão, abordando questões como:

Em relação ao mercado de trabalho, Malta considera-o estável sob a justificativa de que, enquanto houver textos a serem impressos, haverá revisores (p. 82). Considero que essa afirmação ainda hoje é plausível, embora precisemos sempre reconhecer o número de profissionais da revisão que aparecem semanalmente. Tal fato deixa muita gente temerosa, mas paralisa apenas os que não se mostram de fato competentes para essa atividade. Como afirma Malta: “Quem tiver vocação mesmo, quem for competente revisor/copidesque, sempre terá trabalho” (p. 82).

Por fim, cabe mencionar suas considerações sobre a precificação do trabalho de revisão. Acerca desse assunto, o autor divaga longamente, mostrando aspectos a serem considerados em cada orçamento – como tamanho de página, número de caracteres etc. Ainda, Malta considera um erro cobrar “caro demais pela revisão de provas e originais” (p. 87), embora os motivos dessa recomendação não fiquem muito claros, assim como não fica claro o que seria “cobrar caro” pelo trabalho de revisão.

Onde comprar o Manual da revisão

O Manual da revisão está disponível para compra na Amazon (link afiliado).

Sobre esta série

Há diversos outros livros sobre revisão de textos. Nem sempre o objetivo deles é definir diretamente o que vem a ser essa atividade, entretanto praticamente todos a descrevem em algum nível. Conhecer essas teorias da revisão é uma das formas de o revisor compreender melhor sua própria atividade, podendo assim melhorá-la.


Escrito por Marcos Queiroz,
em 1 de outubro de 2019.
Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Ouro Preto. Revisor desde 2013, quando se graduou em Letras pela mesma instituição. Pesquisador e autor de textos sobre a área, o campo, o mundo etc. da Revisão de Textos (com maiúscula).
Foto de Marcos Queiroz