Embora já seja um procedimento bastante antigo e popular nos Estados Unidos (começou a ser usado em Nova York na década de 1920[1]), a checagem de fatos só nos últimos meses parece ter chamado a atenção do mundo com todo o debate que cerca as fake news.

Esse tipo de trabalho é (ou deveria ser) bastante comum entre jornalistas, mas pode – e deve – ser aplicado também à preparação de originais em textos de livros, revistas e sites, sempre seguindo, é claro, o que é solicitado pelo editor ou cliente.

Por não ser a intenção aqui entrar no mérito do que é falso ou verdadeiro, mas sim falar como preparadores de texto podem melhorar essa etapa de seu trabalho, veremos aqui algumas dicas voltadas para quem ainda não tem experiência na checagem de dados em textos.

O que vem a seguir é adaptado principalmente deste texto publicado por Laura McClure no blog do TED Ed.

O que são fatos?

São respostas confiáveis para as cinco perguntas-chave de qualquer repórter: quem, o que, quando, onde e como. Fatos podem ser nomes, números, datas, definições, citações, locais, descobertas feitas em pesquisas, eventos históricos, estatísticas, dados colhidos em pesquisas, títulos e autores, pronunciamentos, dados financeiros, nomes de instituições ou detalhes históricos ou biográficos atribuídos a qualquer um ou qualquer coisa. Fatos são checáveis.

O que é a checagem de fatos?

É o processo que confirma a precisão de declarações a fim de que se crie e compartilhe conteúdo baseado em evidências cujas fontes primárias e secundárias contam com alto nível de confiabilidade e qualidade.

Que tipos de fatos geralmente podem estar errados?

Os erros mais frequentes ocorrem na grafia de nomes de instituições e na atribuição/transcrição de citações. Esses erros podem ser relativamente inofensivos – uma observação qualquer de Benjamin Franklin, por exemplo – ou podem ser fatais – como dizer que uma pessoa errada estava entre as vítimas de um ataque terrorista.

Fatos são tão bons quanto suas fontes

Existem dois tipos de fontes: as primárias e as secundárias. As primárias são pessoas, transcrições, vídeos, registros de visitas, dados crus, estudos científicos submetidos a revisão por pares, entrevistas gravadas, suas próprias pesquisas ou observação presencial. As secundárias são artigos em jornais, revistas ou livros. E é importante notar que, diferentemente de jornais ou revistas, livros não são normalmente verificados. Se você usar um livro como referência, procure na bibliografia ou nas notas as fontes utilizadas pelo autor; se preciso, leia este material também.

Procure sempre por imprecisões, informações defasadas ou vieses inconscientes. Evite passar tudo isso adiante. Em vez disso, tente aumentar o suprimento mundial de verdade trazendo à tona os verdadeiros fatos que importam.

Checagem de nomes

Encontrar fontes confiáveis é sempre um desafio. A melhor opção ainda é verificar como os nomes aparecem nas seções “sobre” de sites oficiais, por exemplo.

Quando a necessidade for verificar nomes de personagens históricos, é interessante conferir como foram publicados em livros, principalmente da autoria dos próprios personagens verificados. É possível que, mesmo assim, você encontre diferentes grafias, então o que resta é apenas escolher uma delas (se possível, a mais próxima à ortografia oficial do português) para padronizar o texto todo.

IBGE Cidades

Em relação aos nomes de cidades, a fonte oficial mais comum é o site do IBGE (https://cidades.ibge.gov.br). Lá é possível filtrar por estado e cidade; os nomes dos municípios aparecem em ordem alfabética.

Checagem de datas

Checar datas requer desconfiômetro afiado e bons conhecimentos gerais.

Algumas datas são mais fáceis de confirmar, como número de leis e sua publicação, porque o Diário Oficial (http://www.imprensanacional.gov.br) hoje em dia é publicado também online.

Outras, no entanto, vão demandar bastante pesquisa em livros e publicações, como saber se duas pessoas citadas como contemporâneas viveram ou não na mesma época. Isso, é claro, faz parte de um trabalho de checagem mais completo e profundo.

Cheque também a precisão de citações

É relativamente comum que, como preparadores de originais, tenhamos o costume de verificar se o autor referenciado numa citação está correto. No entanto, nem sempre nos lembramos de verificar se a frase original está precisamente transcrita e adequadamente inserida no assunto tratado.

Mesmo que o autor seja o responsável pelo conteúdo de seu texto, nós preparadores podemos ajudá-lo verificando também o contexto da citação. Sim, isso pode tomar um tempo além do normal para revisões, por isso é importante combinar isso previamente com o autor/editor, bem como orçar o trabalho de acordo com esse tempo extra.

Outras informações fáceis de confirmar

Buscar na internet pode ser algo rápido, e aqui estão alguns dados que geralmente estão bem visíveis, até mesmo na própria página de resultados do Google:

  • cargos;
  • endereços;
  • números de telefone;
  • URLs;
  • endereços de e-mail;
  • valores (monetários, percentuais etc.);
  • instruções.

Desconfiou de alguma história?

Você também não precisa reinventar a roda ou se especializar em jornalismo investigativo.

Em português já existem sites que fazem isso há muito tempo na internet, como o blog do e-Farsas, criado e mantido pelo Gilmar Lopes há mais de 10 anos. Desses boatos que correm pela internet, é difícil não encontrar lá respostas e fontes que embasam o veredito sobre sua veracidade (ou falsidade, é claro).

Devo verificar toda e qualquer informação de um original?

O nível da checagem de fatos deverá ser primeiramente acordado com o contratante. Tenha em mente que, quanto maior for a exigência de pesquisa requisitada, maior será o tempo gasto; por isso, maior também será o custo desse trabalho.

Encontrei dados incorretos. E agora?

Uma boa prática é sempre perguntar em vez de mudar. Em vez da alteração controlada, que tal deixar um comentário? (Lembre-se também de ser amigável nos comentários.)

 

Fontes

[1]http://verificationhandbook.com/additionalmaterial/

https://www.copyediting.com/6-tips-fact-checking-copyeditor/

http://blog.ed.ted.com/2017/03/30/factchecking-101/