Originalmente lançada em 1985, essa obra de Emanuel Araújo é simplesmente o livro de referência que recomendo a qualquer revisor principiante ou profissional da área editorial que deseje ir do básico ao mais avançado e conhecer um pouco mais cada uma das diversas áreas da produção de livros.

A edição mais atual, revista e atualizada por Briquet de Lemos e lançada em 2011 pela Editora Lexikon, traz um interessante prefácio (à primeira edição, de 1985) de Antonio Houaiss, que diz:

Destarte, o livro, materialmente, na sua feição mais requintada ou mais generalizada presente – folhas de papel impressas, alçadas, coligadas e vestidas, numa unidade normalmente portátil (mesmo que a duas mãos) –, esse livro pode desaparecer: mas não desaparecerão, com sua fisicidade, as suas mensagens e seus códigos: isso que se chamam dialetos literários, isso que se chamam dialetos científicos, isso que se chamam dialetos tecnológicos – e assim por diante. O computador que equivaler à soma de todos os livros será um servo daqueles dialetos – da linguagem oral, que é sobretudo resultado dialético da linguagem escrita – e oferecerá as páginas, as ilustrações, as remissivas, as notas, as capitulações, as subdivisões temáticas, os índices e tanta coisa mais que, por ora, a oralidade não sabe transmitir eficazmente sem sua imagem visual, a escrita.

Houaiss também diz que Araújo, “na linhagem de um livro meu [Elementos de bibliologia], […] dá um passo à frente na bibliologia brasileira, impondo-se a partir dagora como a obra de consulta e referência indispensável em tudo quanto se refira aos temas do amplo espectro teórico e prático suscitado pelo livro”.

À primeira vista, pode parecer uma obra desatualizada, mas uma nota da edição explica os desafios enfrentados para torná-la atualizada em relação a técnicas gráficas e editoriais. E embora estejam conservados os trechos referentes a práticas em desuso por interesse bibliológico ou histórico, que são importantíssimos para a compreensão das próprias técnicas atuais e dos conceitos e jargões usados nas diversas partes do processo editorial (edição, tipografia, impressão, revisão de provas, etc.), a obra se mostra de fato muito atual e importante para uma compreensão mais abrangente do processo editorial e de tudo que envolve a produção de um livro.

A obra é dividida em duas partes principais: I – Preparação de originais; II – O processo industrial; além dos apêndices. Mas não é só isso (veja abaixo um resumo do conteúdo).

A primeira parte aborda diversos problemas de normalização textual, cruzando normas de instituições oficiais (como ABNT) e a prática corrente adotada pelos editores. E logo no prefácio Araújo dá uma lição importantíssima: “[…] a regra básica da editoração é a de quebrar qualquer regra que prejudique a fluência da leitura”.

A segunda parte trata de processos industriais, ou seja, a fase de elaboração do livro que vai do projeto gráfico (tipografia, composição, papel, valor do livro), passando por projeto visual e revisão de provas até chegar à impressão.

Além disso, as páginas estão cheias de notas de rodapé e referências a outras obras (nacionais e estrangeiras) importantíssimas e mais específicas sobre diversas áreas. Araújo cita não apenas normas oficiais como a ABNT mas também livros de referência em áreas como tradução e terminologia, bibliologia, editoração, indústria editorial, publicações científicas, etc.

Como se não bastasse, ao final do livro temos uma bibliografia com indicações de obras separadas por temas e muitos outros subtemas: Obras gerais; História do livro; Preparação de originais; Bibliografia; Edições críticas; A página impressa; e O livro na máquina.

Conteúdo

Nota
Prefácio à 1ª edição, de 1985
Prefácio do autor
Introdução

Parte I – Preparação de originais

  • Capítulo I – Editoração, um conceito na história (este capítulo faz um apanhado histórico, indo dos livros dos antigos bibliotecários na Antiguidade, passando pelos livros dos monges e impressores até chegar aos livros dos editores e publishers).
  • Capítulo 2 – Normalização geral do texto (O editor e o texto; Ortografia; Reduções; Citação e realce gráfico; Notas; Bibliografia; Traduções; A digitação; Indexação.)
  • Capítulo 3 – Normalizações especiais (Poesia; Teatro; Línguas estrangeiras.)
  • Capítulo 4 – Edição crítica (Estabelecimento do texto; Os textos da Antiguidade Médio-Oriental; Textos da história do Brasil; Textos literários.)

Parte II – O processo industrial

  • Capítulo 5 – O projeto gráfico (O estudo do tipo; A composição; O papel; O preço do livro.)
  • Capítulo 6  –  Revisão de provas (O erro; A técnica da revisão; Etapas da revisão.)
  • Capítulo 7  –  O projeto visual (O princípio da legibilidade; Organização da página; Estrutura do livro; Arte-final.)
  • Capítulo 8  –  A iconografia (O legado da tradição manuscrita; A ilustração impressa.)
  • Capítulo 9  –  A impressão (O impacto das novas tecnologias; Tipografia; Rotogravura; Offset; Impressão a seco; As tintas de impressão; Impressão em cores; O produto final.)

Apêndices (Abreviaturas; Ortografia de onomásticos; Conversão de cíceros em paicas; Equivalência de linhas entre o original e a composição; Sinais de revisão de provas; Sequência de cadernos por páginas.)

Indicações bibliográficas (Obras gerais; História do livro; Preparação de originais; Edições críticas; A página impressa.)

Destaques

A primeira parte obviamente se relaciona mais com a função do revisor, uma vez que aborda principalmente a preparação de originais em suas diversas etapas; e os capítulos que talvez mais interessem aos revisores e preparadores são o Capítulo 2 (Normalização geral do texto), que traz excelentes observações quanto a questões estilísticas diversas (usos e abusos contra a clareza, o vocabulário, a técnica do período curto, o parágrafo), ortográficas (maiúsculas e minúsculas, grafia de nomes próprios, formas optativas para substantivos comuns, boas práticas para divisão silábica, numerais), reduções (abreviaturas, siglas e símbolos), entre outras normas e práticas gerais; e também o Capítulo 3 (Normalizações especiais).

O Apêndice E (Sinais de revisão de provas) é bastante útil e pode dar uma boa noção dos sinais de revisão usados em editoras. Por fim, as diversas outras obras citadas na bibliografia, especialmente na seção C (Preparação de originais), serão de grande ajuda a qualquer profissional ou estudante que deseje se aprofundar nessas áreas.

Quando usar?

Aqui não posso deixar de lado minha experiência pessoal: após começar a trabalhar numa editora, durante um longo tempo eu levava esse livro comigo a todos os lugares para sempre aprender um pouco mais não só sobre os processos da minha área de atuação mas também das áreas “invisíveis” para mim (especialmente projeto gráfico, impressão, acabamento, etc.). Entre os diversos livros que ainda vamos recomendar aqui, esse deve com certeza fazer parte da sua lista.


Sugestões?

Você tem alguma sugestão de obras para comentarmos aqui na coluna Livros para revisores? Mande para nós clicando aqui!