Você chegou agora e não está entendendo muito bem como posso afirmar que todos os erros gramaticais podem ser corrigidos com apenas uma dica. Antes que você coloque em dúvida a minha sanidade mental, explico-me.

Chega de listas de erros

Já falamos aqui sobre a ilusão das listas de “100 erros mais comuns”, “80 erros que o fazem parecer burro” etc.

O fato é que esse tipo de lista geralmente traz informações equivocadas (“Não existe ‘o champanhe’, o certo é ‘a champanhe’”), regras que não existem em gramática alguma (“Usar ‘num é incorreto; o correto é ‘em um’”), para não falar nas correções puramente baseadas em lógica e que – veja bem – cometem os próprios erros que condenam.

Além disso, com o tempo essas listas vão se transformando em cópia da cópia, até nem se saber mais quem disse, por que disse e quais critérios usou para dizer.

Herança dos manuais de redação?

As listas de erros mais comuns são o derivado millennial fast-food de algo que já estamos carecas de conhecer: manuais de redação e estilo (aqueles dos grandes jornais e órgãos públicos). É bem comum encontrar até mesmo revisores de texto que tomem como substitutos de gramáticas e dicionários esses compêndios de regras. (Sobre isso já falei no post Manuais de redação, padronização e estilo: heróis ou vilões?.)

Não vou dizer que esse tipo de publicação não tem o seu propósito; claro que tem. O ponto aqui é o uso que se faz deles: substituímos as referências originais por apanhados de tira-dúvidas. No entanto, geralmente é aí que acaba a pesquisa, muitas vezes por falta de tempo ou preguiça.

Fazendo isso, corremos o risco de nos limitarmos muito mais no nosso modo de expressão escrita do que faríamos se entendêssemos como de fato a língua funciona.

Mas não tenho tempo!

Ora, Carol, eu não tenho tempo para pesquisas aprofundadas sobre questões da língua. Eu quero é olhar no dicionário e saber se é com hífen ou não!

Se você pensa que entender as regras por trás da grafia, da pontuação ou da hifenização é perda de tempo porque você pode olhar numa lista, permita-me dizer que está enganado. Saber a regra e raciocinar em cima dela é muito mais rápido do que parar tudo o que se está fazendo e ir conferir o dicionário. Aliás, nem tudo está descrito no dicionário e nem todos os dicionaristas e gramáticos concordam em todos os casos (mas esse é outro papo).

Dicas de língua portuguesa no Facebook

Existem diversas páginas no Facebook que buscam “valorizar a língua portuguesa”, dando dicas e ensinando macetes para quem tem dificuldades na escrita.

O problema é quando aparece este tipo de “dica”:

em mão dica CNJ

Eu não sei dizer por que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) dá “dicas de português” no Facebook. Vá entender.

Dicas de língua portuguesa com fontes

O ponto aqui é mostrar diversas boas referências que contradizem a regra cagada do CNJ. E mostrar que nem sempre é tão difícil recorrer a elas. Veja:

Cegalla (2012, p. 149):

em mão, em mãos. Expressões que se usam para indicar que uma correspondência ou uma encomenda devem ser entregues diretamente ao destinatário por um particular e não pelo correio. As duas formas são corretas, mas no Brasil se emprega geralmente em mãos: entregar uma carta em mãos (ou em mão).

Lista de reduções da ABL

Na lista de reduções mais frequentes da ABL é possível encontrar: “E.M. em mão, em mãos”.

Houaiss (2009)

  • em mão(s)

para ser entregue pessoalmente, por um portador, em vez de enviado pelo correio (palavras us. em correspondências; abrevia-se ger. E.M.); em mão(s) própria(s)

Aulete

Em mão(s)

1 Us. para indicar que a carta ou outro documento enviado a alguém é, ou deve ser, entregue ao destinatário por um mensageiro particular, e não através do correio.
2 Diretamente ao destinatário, por entrega particular

Então como assimilar tantas regras?

Bom, aqui é que entra a única máster bláster dica:

Jogue no lixo a ideia de que você terá sempre respostas fáceis e mastigadas em matéria de língua.

Esqueça o pensamento de que só existem dois caminhos – o certo ou o errado. Abra-se à possibilidade de entender como funciona o fenômeno da crase e deixe para trás as listas de “Pecados mortais da crase” e “Casos proibitivos da crase”.

Vírgula é proibida entre sujeito e predicado? O que você me diz então quando há uma intercalação entre esses termos da oração? E o caso da oração subordinada substantiva subjetiva (o famoso “Quem ama, educa”)? Esses são só alguns exemplos de como não entender como a língua funciona e não recorrer a boas fontes de consulta pode limitar nossas concepções gramaticais.

Mas cê tá brava?

cê tá brava?

Sim, eu me revolto com quem diz ter a pílula mágica da solução gramatical! Isso porque não existe conhecimento linguístico sem estudo, sem ir às fontes, sem comparar as opiniões de quem dedica (ou dedicou) uma vida a esses estudos. Esses materiais podem ser, no máximo, um estímulo para que você comece a buscar materiais mais aprofundados.

Mesmo que lá na escolinha tenhamos sido ensinados que na gramática normativa tudo é preto no branco, na verdade ela ainda é cheia de casos optativos, contradições e lacunas. Como profissionais da língua – redatores, tradutores e revisores principalmente –, é nosso dever trabalhar a linguagem da forma mais adequada possível, levando em consideração sempre o público leitor em primeiro lugar.

E o mais importante: não se deixe levar por títulos que prometem soluções fáceis para questões complexas.

 

Fontes

Para dar o bom exemplo, indico abaixo as fontes consultadas para a redação deste artigo.

MÃO. In: Dicionário Caldas Aulete. Rio de Janeiro: Lexicon. Disponível em: <http://www.aulete.com.br/mão>. Acesso em: 27 jul. 2017.

MÃO. In: Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. Versão eletrônica.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Porto Alegre: L&PM, 2012.