Me apresentando

Quero me apresentar aqui de forma que eu não me sinta numa entrevista de emprego, pois só o revisor sabe o quão traumática pode ser uma entrevista com seus longos testes que, no geral, não refletem em nada nossa condição de trabalho. Encaremos isso tudo como uma conversa entre amigos ou recém-conhecidos (Prazer, me chamo Allan Moraes, aliás).

, 8 de janeiro de 2013

Muitos textos que abordam o tema revisão de textos classificam a profissão quase que como um distúrbio digno de figurar no ICD – e talvez eu seja a prova notável dessa condição. Gostaria de esclarecer que os próximos textos de minha autoria neste blog, que me recebeu tão bem e com confiança (apesar de todos meus distúrbios), podem ser usados, sem qualquer ônus, por neurologistas, pesquisadores e curiosos interessados nessa singular condição mental que aflige o profissional revisor de textos (ou minha mente mais especificamente).

Quero me apresentar aqui de forma que eu não me sinta numa entrevista de emprego, pois só o revisor sabe o quão traumática pode ser uma entrevista com seus longos testes que, no geral, não refletem em nada nossa condição de trabalho. Encaremos isso tudo como uma conversa entre amigos ou recém-conhecidos (prazer, me chamo Allan Moraes, aliás), o que servirá melhor para encobrir minhas falhas (não poucas) e minha falta de controle na área pessoal e profissional; sendo uma delas o fato de eu ser, creio, um dos poucos revisores ativos que gostam da profissão sem ter completado qualquer formação superior relacionada à área, apesar das tentativas.

Isso já resume bastante quem sou e minha relação com a área de revisão de textos. Talvez eu seja a prova, antes de tudo, do velho clichê (mais conhecido entre os profissionais da área) de que para ser um (relativamente) bom revisor basta ter disciplina e gostar de estudar a língua. Isso para mim serve como desculpa (ufa!) de não ter um diploma, mas também me dá a esperança de provar a gente ignorante (aqui no sentido pejorativo mesmo) que é possível manter corpo e alma juntos e ser bom no que se faz sem necessariamente ter alguém durante quatro ou cinco anos dizendo o que você deve ler e pensar.

Longe de mim querer denegrir a reputação louvável da área acadêmica e de pesquisas com o comentário anterior. De fato, quando fiz essa descoberta pessoal, eu é que fui o safado da história e tive que cortar qualquer relação com o academicismo. Abri um artigo científico intitulado “Xuxa: a frustração virtual de um mito” e escrevi um bilhete no rodapé: “O problema não é você, sou eu...” na esperança de que aquela mensagem fosse lida e interpretada sem ressentimento. Ainda hoje há tentativas de retomarmos essa relação, mas procuro sempre manter o academicismo na friend zone.

Aprendi muitas coisas importantes com essa profissão, mas não serei hipócrita a ponto de dizer que desejo batalhar muito para construir minha carreira. Se você encara a revisão de textos dessa forma, por favor, pare! Há muitas coisas além de normas, regras de português e gramáticas (e é neste ponto que esse texto vai por água abaixo como a oportunidade de atrair futuras oportunidades profissionais).

Isso não significa também que eu não esteja imerso na atividade: leio em média de 9 a 10 horas por dia (2/3 disso ou pouco mais na frente do computador e 2/3 em línguas que não português). Enquanto redijo este texto, estou aguardando um jogo carregar suas fases para então poder revisá-lo; no Gtalk, estou discutindo com uma excelente colega se devo usar “Frases pirata” no singular ou no plural e ao mesmo tempo justificando a uma redatora uma alteração que fiz no texto dela; pelo Twitter, desabafo com outra colega sobre os augúrios da nossa profissão. Isso, acredito, mostra um pouco do meu envolvimento e do caos que cerca minha rotina.

[caption id="attachment_1810" align="alignleft" width="212"]Falando em caos, sou também grande fã de William Burroughs. Caos: sou também grande fã de William Burroughs, de literatura tabu de qualquer tipo e também de textos longos (calma, está acabando).[/caption]

Falando em Twitter: foi onde a Carol e eu entramos em contato, falando sobre a profissão de forma natural. Para mim, a plataforma serve mais como um analista (no fundo eu sei que quem me tolera são meus seguidores) que é obrigado a ler minhas reclamações sobre tudo – aconselho o seu uso (moderado ou não, como é meu caso) por todos os profissionais revisores. Apesar da revisão não ser algo tão solitário quanto se pensa, sempre precisamos de algum tipo de integração, mesmo que seja para reclamar. Dessa forma, procuro manter aquilo com toda precaução com que manteria um depósito de lixo nuclear: pela saúde de vocês, especialmente das pessoas sensíveis a erros linguísticos, por favor, não visitem nunca meu perfil.

Apesar disso, não tenho fobia tecnológica. De fato, muitas vezes me vejo mais pesquisando sobre melhores formas de usar a tecnologia em meu trabalho que sobre assuntos relacionados à língua, afinal, de que adianta saber de cor toda a gramática do Bechara se não soubermos como revisar um arquivo em PDF?

Talvez esse será meu principal assunto e meu principal tipo de contribuição por aqui, aliás, e espero que vocês gostem das dicas.

Por fim, queria agradecer novamente à Carol pelo convite e por me dar a oportunidade de publicar meus textos sobre um assunto que gosto, admiro e que faz parte do meu dia a dia, bem como a oportunidade de debater com vocês, leitores, tais assuntos (e até mesmo este texto) e garantir assim que todos nós nos aperfeiçoemos cada vez mais, seja como revisores, redatores, escritores, neurologistas ou apenas como pessoas que gostam de estudar nossa língua.

PS: quanto ao título deste post – pensei nele com uma função principal: encobrir minha falta de criatividade com a seguinte justificativa: como revisor, eu tomei partido no sentido de também ser, de certo modo, subversivo em relação à linguagem usada por certos acadêmicos (me desculpem novamente) e por profissionais que, de tão neuróticos com regras, não devem ter poupado o fôlego para ler o texto até este ponto e assim descobrir o motivo que me levou a usar próclise no início da frase. Uma heresia, sim, porém, como eu havia dito, eu gosto de tudo que é tabu.


Escrito por Allan Moraes,
em 8 de janeiro de 2013.
Paulistano, divide o tempo entre tentar aprender línguas, livros de filosofia e o trabalho como revisor freelancer.
Foto de Allan Moraes