Livros para revisores: três guias básicos

Nesta série de posts de livros para revisores, descrevemos e analisamos obras que podem ser de grande ajuda no seu dia a dia.

, 20 de novembro de 2015

Guias, manuais, dicionários de dificuldades e compêndios diversos que tratam de dúvidas comuns de português, padronização, recomendações gerais e descrições e usos da língua são, na verdade, os livros mais básicos e mais usados por revisores — e é assim que um guia de português deixa de ser “tira-dúvidas” para se tornar um livro que é lido integralmente pelo revisor; muitas vezes até com mais atenção e interesse do que a leitura dedicada a qualquer romance.

Isso acontece quando o guia é bom, claro, e quando, além de dar prescrições, disserta sobre as “regras de português”, faz comparações entre suas conclusões e a de outros gramáticos e linguistas, bem como explica e registra usos correntes.

“ABC da Língua Culta”, de Celso Luft

Apesar de ser um guia, para os revisores, o "ABC da Língua Culta", de Celso Luft (Editora Globo, 2010), é tão recheado de excelentes prescrições (no bom sentido) e descrições que é possível lê-lo por horas sem se entediar; ou seja, é mais que um mero tira-dúvidas e pode (e deve) ser lido integralmente por todo profissional da nossa área.

ABC da Língua Culta - Celso Pedro Luft

Você pode comprar este livro na Livraria Cultura.

No ano de seu lançamento, Cláudio Moreno, que foi aluno de Luft e cujo site Sua Língua complementa com excelentes artigos a obra de seu mestre, disse que o “ABC da Língua Culta” se tratava do “mais importante lançamento do ano”.

“Dicionário de dificuldades da língua portuguesa”, de Cegalla

Quase o mesmo pode ser dito do “Dicionário de dificuldades da língua portuguesa”, de Domingos Paschoal Cegalla (Editora Lexikon, 3ª edição, 2011). Exatamente por serem guias, ambas as obras são bem parecidas; mas isso pode enganar à primeira vista, pois é apenas quando confrontamos as prescrições das duas obras que começamos a notar suas particularidades.

Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa da Língua Portuguesa

A mais evidente delas é que Cegalla é mais austero, menos flexível quanto a alguns usos, enquanto Luft procura apenas recomendar um uso/forma em vez de outro. Luft, por exemplo, usa expressões como “puristas condenam sem razão” ou “recomenda-se” e “evite-se”; Cegalla, por outro lado, é mais direto: “Não se usa”; “Pode-se questionar a vernaculidade”, etc.

Para que fique mais evidente a intransigência de Cegalla, reproduzo aqui uma estranhíssima conclusão que aparece na entrada “e-mail” (expressão que Cegalla condena em seu “Dicionário de dificuldades”): “Por subserviência intelectual e pouco amor à língua pátria, os profissionais de comunicação acolhem e veiculam monstrengos como esse, de pronúncia rebarbativa que violentam a fonética portuguesa”. Logo a seguir o autor também condena a expressão “em anexo”, e bate o martelo (ou bate na tábua): “Expressão condenada”.

“1001 dúvidas de português”, de José de Nicola e Ernani Terra

Por fim, um pequeno e interessante guia é o simpático “1001 dúvidas de português”, de José de Nicola e Ernani Terra (Editora Saraiva, 2009). A edição mais comum (chamada de “versão portátil”) é em formato de bolso (literalmente) e contém 320 páginas com boa organização e diagramação, qualidades que ajudam na hora de fazer uma pesquisa rápida.

1001 dúvidas - Ernani Terra

Pelo seu tamanho, é ótimo para levar para qualquer lugar. Também traz o texto integral do novo Acordo e muitas pílulas gramaticais (uso da vírgula, dois pontos e travessão, tempo verbal, sintaxe, etc.).

QUANDO USAR?

Como dito, tais obras podem ser usadas durante o trabalho do revisor de modo contínuo. Isso quer dizer que, como bons pesquisadores, devemos sempre confrontar e comparar prescrições como essas para chegar a um resultado mais adequado.

Revisores não são gramáticos nem autoridades da língua; revisores são mais como cicerones no museu das gramáticas: eles devem fazer o percurso entre as prescrições e os gramáticos e muitas vezes devem dizer a redatores e escritores: “Veja bem, existe esta e esta opção. Você escolhe a que gostar mais”.

Quando é o revisor que tem de escolher, ele deve sempre fazer isso se baseando nessa comparação entre autores ou, idealmente, definir antes de tudo, com editores, redatores e colegas, qual guia, dicionário e manual será referência e fiel da balança ao longo do trabalho de revisão.


SUGESTÕES?

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Escrito por Allan Moraes,
em 20 de novembro de 2015.
Paulistano, divide o tempo entre tentar aprender línguas, livros de filosofia e o trabalho como revisor freelancer.
Foto de Allan Moraes