Por mais que a área de editoração tenha se modernizado profundamente nos últimos vinte ou trinta anos, desde que se tornaram mais comuns os processos intermediados por computador (softwares de editoração, CAT Tools, processadores de texto como o Word e o próprio e-mail, para não falar no Google Docs, que promete ainda mudar muita coisa na forma como o texto é trabalhado), a imagem do revisor continua basicamente a mesma: alguém que “entende muito” de gramática (como se a gramática fosse algo compreensível apenas para alguns poucos “iniciados”), que sabe todas as regras de cor, uma pessoa reclusa, que gosta mais de livros que de pessoas, que trabalha num cantinho isolado ou numa sala própria onde não se pode ouvir o barulho dum alfinete caindo.

Apesar de parecer uma pessoa calada e tranquila, o revisor é implacável: ninguém vai contra sua tábua de leis e seus mandamentos — pecar contra a sagrada gramática é certeza de punição. Resumindo: o revisor é um chato.

Claro, ninguém quer ser o chato. Eu não quero. Mas como mudar a imagem de chato e se tornar mais “descolado”? Para o revisor, não basta começar a usar um boné, falar gírias e colar nos shows com a galera.

Com isso quero dizer que a imagem do revisor chato talvez não precise ser totalmente repaginada, como se o revisor precisasse passar por uma espécie de extreme makeover. O revisor não precisa abandonar as práticas do passado, rejeitar o que parece ser “velharia” apenas para se mostrar como moderno, descolado e in. Não é isso que quero dizer.

O que quero pontuar aqui é a necessidade de sabermos que não existe apenas um único tipo de revisor, ou seja, um estereótipo; e muito menos que todo revisor deva ser ou buscar ser esse revisor antiquado, esse estereótipo. E um dos problemas do estereótipo é exatamente que muitas vezes nos submetemos a ele porque é fácil, porque é exatamente “o que as pessoas esperam mesmo” — para o melhor e para o pior.

Sim, é até romântica essa imagem do revisor antiquado de suéter verde-musgo com cotoveleiras, curvado, os óculos pendurados no pescoço com aquela velha alça, cercado de gramáticas e dicionários amarelados, o senhorzinho quadrado que, soltando um pigarro, dá bronca nos redatores e estagiários no jornal ou que tem o poder de apontar com uma irônica facécia (quer palavra mais antiquada?) cada erro do autor ou do tradutor.

É uma imagem romântica, mas que não corresponde mais à realidade. Hoje em dia há tantos tipos de revisores quanto há livros e textos de diferentes áreas. Para mim, o ecletismo continua sendo a lei máxima do revisor: ler de tudo e saber de tudo um pouco. Mas até o ecletismo tem suas desvantagens (o que não cabe expor aqui por enquanto).

A questão é que talvez o primeiro passo para mudar esse estereótipo deva partir dos próprios revisores. Isso pode começar por meio de uma atitude simples: nunca vender ao cliente a imagem de que você é um revisor sabe-tudo.

Acredite, essa é a imagem que a maioria dos clientes espera de você como revisor. Você pode vender a imagem de que é um revisor sabe-tudo, claro, mas isso tem suas desvantagens (para ser eufemista), assim como também há desvantagens ao se vender a imagem de um revisor mais especializado, ou seja, de um revisor que talvez não saiba bem como lidar com ABNT ou com materiais de propaganda e marketing (e, sim, há diferenças consideráveis entre as duas coisas).

O revisor sabe-tudo, quando confrontado com um problema que não sabe resolver, terá de se virar para achar uma saída (e na maioria das vezes ele não vai achar). Se não conseguir lidar com o problema, passará a imagem de incompetência. É o velho problema de fazer com que as pessoas tenham uma grande expectativa, uma expectativa irreal — e também uma grande decepção. Outro problema disso é que o cliente, sem saber bem que cada revisor é diferente, sairá em busca do “revisor perfeito” como um cavaleiro em busca do Santo Graal.

Já o revisor mais especializado (lembrando: não significa que ele não possa ser eclético, o que, por sua vez, é diferente de ser um sabe-tudo), o revisor que tem um estilo definido, mostrará ao cliente o que ele deve esperar de seu trabalho e o que o cliente não pode esperar receber. O revisor que sabe sua especialização é como o autor que tem um estilo próprio: ele faz determinadas escolhas, tem preferências (algumas objetivas e outras subjetivas) e gostos, ele gosta de desenvolver mais o aspecto X do seu trabalho do que o aspecto Y.

Por exemplo: eu sei, eu tenho plena consciência de que meu estilo está mais próximo de algo como uma “preparação”: no texto, gosto de procurar por inconsistências lógicas, incoerências (como dizer que “as ruínas do Partenon foram construídas em 477 a.C.” — ora, ruínas não são construídas), gosto também de fazer pesquisas e checar informações. E tenho consciência de que isso tem suas desvantagens: como dou mais atenção a tais detalhes, minha atenção não é totalmente dedicada a erros de sintaxe, por exemplo, porque não tem como dar atenção a ambas as coisas ao mesmo tempo.

É exatamente por isso que meu trabalho pode (e deve) ser complementado pela revisão de outro revisor profissional cujo estilo é exatamente oposto ao meu: este revisor, ao contrário de mim, dá muito mais atenção à sintaxe que a incoerências, por exemplo. E pronto: trabalho em equipe. Com isso, o material terá muito menos erros em diversos aspectos.

Agora, se eu passar a imagem de que sou um revisor perfeito, de que dou atenção tanto à sintaxe quanto a incoerências, de que meus olhos também são perfeitos para erros ortográficos, pontuação, estilística, tradução, etc., não só estarei mentindo para mim mesmo e para meus clientes como também serei um chato sabe-tudo que não sabe dividir funções e habilidades com outras pessoas.

Já fiz parte de equipes em que cada revisor tinha um estilo diferente. E isso está longe de ser um problema. Era uma bênção: eu podia confiar que se não pegasse um erro de sintaxe, por exemplo, meu colega pegaria porque ele era bom nisso; da mesma forma, meu colega podia confiar que, num material de informática, por exemplo, eu saberia identificar inconsistências de conteúdo e de informações.

O trabalho de revisão é mais como o de uma banda: todos são músicos, mas cada um toca seu instrumento do seu próprio jeito e com seu estilo. Não espere ter uma boa banda e uma boa música ao trocar o lugar do baterista com o do guitarrista. Claro que um deve ter noção e saber um pouco o que faz o outro, e isso é ótimo, mas cada um tem seus gostos, suas preferências, e por isso mesmo escolheu tocar desse ou daquele jeito, este instrumento e não outro.

O mesmo acontece com revisores. E assim como você tem uma boa música quando cada um sabe tocar bem seu instrumento, você também tem um bom texto quando cada um na equipe sabe como tocá-lo.