O que é exatamente essa coisa de “estilo”? Na parte 1 deste post, muitos leitores podem ter confundido estilo com preferência ou até mesmo com ideias como talento capacidade profissional.

Quando eu disse, por exemplo, que tinha preferência por preparar um texto em vez de procurar por coisas como erros de sintaxe ao longo da revisão, muitos pensaram que eu disse que era “ruim em sintaxe”. São duas coisas diferentes: dar mais atenção e ter preferência por certos elementos de um texto não significa que você, como revisor, deva negligenciar ou assumir “ser ruim” em outros. A coisa não é bem assim…

Primeiramente porque leva tempo até que um revisor conheça a si mesmo como profissional e tenha consciência de seu estilo, especialmente quando trabalha sozinho. Uma máxima que sempre digo é a de que todo revisor é bom e capaz até que seu trabalho seja revisado por… outro revisor; ou seja, muitas vezes é apenas trabalhando (e trabalhando bem) em equipe que começamos a perceber quais são nossos vícios e falhas, nossas fraquezas e também nossas forças e qualidades — em suma, nosso estilo.

Em segundo lugar, eu diria que, da mesma forma que seria charlatanismo um médico dermatologista prescrever a um paciente um remédio para um problema psicológico, também o revisor que diz poder “curar” e consertar todo tipo de texto deveria ser tratado com a mesma desconfiança. Como a Carol bem ressaltou num post recente, fazer seu marketing apoiado em uma ideia do tipo “Eu reviso qualquer tipo de texto” é uma apresentação profissional que não inspira tanta confiança em bons clientes.

Entretanto, esse marketing ainda dá certo (ou seja, ainda atrai clientes) e é muito comum. Por quê?

Como eu disse, ainda existe a ideia de que o revisor é um profissional sabe-tudo, um dicionário ambulante que faz mágicas no texto, ou seja, o super-revisor. Na verdade, a imagem que mais condiria com a do revisor competente hoje em dia seria a de um excelente pesquisador da língua.

E o revisor que trabalha sozinho?

Aqui surge o problema. “Não pega mal dizer ao meu cliente que não reviso de tudo? Afinal, se ele está pagando, quer o melhor.”

Vamos por partes.

Assim como um multi-instrumentista não grava uma música tocando todos os instrumentos ao mesmo tempo, um revisor também não consegue, “numa revisada só”, conferir, corrigir e alterar tudo que é necessário num texto. O multi-instrumentista primeiro faz a base, depois a bateria, depois o vocal, depois outros detalhes, com cada parte da música executada de forma separada.

Por sua vez, o revisor que “toca o texto sozinho” não consegue nunca abraçar o mundo e revisar tudo de uma vez (por tudo quero dizer aspectos como ortografia, coesão, coerência, tradução — quando é o caso —, pontuação, paginação, sumário, padronização, etc.).

O que ele pode fazer é ler e reler várias vezes o texto e, a cada vez que o relê/revisa, procurar focar um desses aspectos. Isso é o que chamamos de “níveis de leitura/revisão”: a cada leitura, passa-se do nível mais superficial (como corrigir acentos, ortografia, pontuação) para o nível mais profundo (coesão, coerência, etc.).

O problema é que, a cada releitura, o revisor fica mais e mais acostumado com o texto, até que chega o momento em que o olho/cérebro praticamente começam a ler apenas no modo skimming (falando aqui de casos extremos ou em que o revisor precise ser mais “produtivo” que “qualitativo”).

Mais de uma revisão de prova com profissionais diferentes

Sabendo disso, podemos entender por que muitas editoras antigamente passavam os livros por três, quatro ou até mais revisões de prova — cada uma feita por um profissional diferente. Minha ideia é de que isso se dava por três motivos: 1. garantir maior qualidade; 2. porque era necessário fazer mais de uma revisão; e 3. porque, a cada “nível de erro” eliminado, o próximo revisor poderia dar mais atenção a outros detalhes.

O item 1 é autoevidente, já o 2 complementa o 3 e vice-versa. Mas o item 3, especialmente, se trata do que mais desejo explicar aqui: como sabemos, quando um revisor tem de revisar um texto sozinho, muitas vezes até mesmo fazendo tarefas que caberiam a outra etapa (como a preparação), ele acaba se sobrecarregando; dependendo do prazo, pode ser que ele não consiga passar do nível superficial para o nível mais profundo da revisão — e aqui é que entram as variáveis.

Um exemplo um tanto extremo (mas nada incomum)

Suponha que um autor independente contate você dizendo que precisa revisar seu livro. Ele dá um prazo apertado e envia uma amostra do texto, que está cheia de erros. Você já nota que terá um trabalhão. A cereja do bolo: o orçamento dele é apertadíssimo e, fazendo as contas, você percebe que, pelo que ele quer/pode pagar, só será possível revisar o texto superficialmente (afinal, você não vai trabalhar quatro horas a mais por dia para um orçamento que não cobre esse nível de trabalho ou, de forma mais específica, não cobre esse nível de revisão).

Você sabe que “revisar um livro” é algo muito genérico (primeiro deveria haver a edição ou leitura crítica, depois a preparação e então a revisão, para ficarmos no básico). Mas você não quer dizer a ele que o texto precisa ser mais trabalhado (pois quer fechar o orçamento logo) e que talvez seja preciso pagar pela preparação (que ficará bem acima do orçamento que foi passado).

Mas talvez o pior de tudo: você, revisor, não especifica qual será seu tipo (isto é, seu estilo) de revisão. Você vende a ele a ideia de que “fará o possível”, ou seja, vai tentar entregar a ele o texto com o máximo de erros corrigidos. Resumindo: mais uma vez você está vendendo ao cliente a imagem do revisor sabe-tudo e faz-tudo.

Outro problema dessa falta de comunicação (eu diria até falta de “educar” o cliente, ou seja, de mostrar com calma a ele que o processo não é bem este) é que, sem especificar o que é “erro”, o que é “revisar” e sem detalhar o que será feito ao longo de sua “revisão” (por exemplo: se os nomes dos personagens não estiverem consistentes, você corrigirá isso?), ambos entrarão numa Torre de Babel. Quando o cliente receber o material, pegar um “erro” e disser então que “Você devia ter corrigido isto e isto”, você dirá que “Não, porque meu trabalho não inclui isto e isto”.

Resumindo o problema: vocês não especificaram os detalhes do trabalho nem ressaltaram quais são as barreiras e possíveis empecilhos (prazos, orçamento apertado, qualidade do texto, etc.). O cliente esperou de você uma revisão “corrige tudo/muda tudo/deixe tudo perfeito” e você vendeu ao cliente a imagem de que entregaria um resultado ideal. O erro de ambos: não contar com as variáveis.

Revisão e revisores ideais só existem em condições ideais

Vivemos numa realidade em que existem prazos apertados, orçamentos apertados, maus redatores e informações não verificadas — ou seja, numa realidade em que as condições não são ideais, em que existem variáveis.

Cada uma dessas variáveis é uma barreira para o revisor que trabalha sozinho. É por isso também que editoras antigamente empregavam mais revisores numa única obra: é um meio de criar a condição mais ideal para a revisão de um texto.

É exatamente por isso que o revisor deve procurar saber quais são suas limitações, preferências e qualidades e reconhecê-las de forma consciente; então, ao seu modo, deve informar ao cliente o que ele deve esperar do seu trabalho.

Se feito o contrário, ou seja, se cada vez mais desejarmos “concorrer” por meio da imagem em vez de termos consciência de nossas limitações para então nos aperfeiçoarmos (é isso que digo sobre “educar” clientes e também nos educarmos), pode ser que até consigamos por um bom tempo nos dar bem na área, trabalhando com bons clientes e conseguindo grana, mas o custo disso, além das dores de cabeça infinitas após a entrega do trabalho, é a perpétua estereotipagem da profissão e a falta de consciência geral do que faz um revisor — e principalmente de como faz.