Revisores têm uma característica muito particular, principalmente aqueles com alguma experiência: nós adoramos um bom padrão. Uma das primeiras perguntas que fazemos (ou deveríamos fazer) ao receber materiais de novos clientes é “você tem um manual de redação?”.

[perfectpullquote align=”full” cite=”” link=”” color=”” class=”” size=””]Isso acontece porque, como sabemos, a gramática normativa (principalmente) não consegue cobrir todas as possibilidades de uso da língua. Não só não cobre como também há muitos casos optativos, isto é, não há só uma forma consagrada de uso.[/perfectpullquote]

Aí entram os manuais de estilo e padronização. Você pode escrever “5” ou “cinco”; ambos são corretos. Entretanto, nós buscamos um texto coerente não só no campo das ideias mas também em sua forma, certo? Então não podemos ficar variando entre as duas formas (a não ser que haja um bom motivo para isso): precisamos escolher uma ou outra. O manual nos ajudará a guiar essas escolhas.

A quem serve o manual de redação

É importante destacar já de início que esses manuais nada mais são do que documentos internos, específicos de cada empresa. Eles não são compêndios gramaticais, não são gurus de dicas de português para todas as pessoas e todos os tipos de texto. Não têm esse propósito nem devem ser usados com esse fim.

Mas por que não usar manuais de redação como guias de língua portuguesa? Porque, como já mencionei, eles restringem usos. Exemplificando: você tem o uso x e o uso y, os dois são gramaticalmente aceitos e usados pelos melhores escritores que a língua de Camões já viu. No entanto, por uma questão de padronização, o manual do jornalão disse que só o uso x deve ser aplicado na publicação. O autor desse manual estava errado ao indicar esse uso? Não, pois esse é o propósito do manual. O problema ocorre quando você usa esse manual equivocadamente, como um guia gramatical geral. Entende a diferença?

Só para ficar nos manuais mais conhecidos, que são vendidos até em livrarias: o Manual de Redação da Folha de S. Paulo e o Manual de Redação do Estadão são de uso dessas empresas; assim como o Manual de Redação do Planalto serve para materiais criados pela presidência da república ou para ela. Principalmente no que diz respeito a questões gramaticais, não devem ser usados como última palavra de correção. Pense neles como um recorte bem específico da língua – até porque eles buscam padronizar um gênero específico: o jornalístico.

Mas você não precisa fugir dos manuais de redação

Muitos clientes, em geral as editoras, têm seus próprios manuais de estilo – esses, sim, devem ser seguidos à risca, porque é o papel dos revisores que trabalham para aquela casa. Isso inclusive é ótimo, pois diminui drasticamente o número de perguntas do preparador de originais e do revisor de provas ao editor. Imagine ter de perguntar, a cada trabalho, se o editor prefere meia-risca ou travessão em determinado texto? É mesmo contraproducente.

Além disso, os manuais de redação desses grandes jornais podem ser bons guias de padronização editorial, caso seu cliente (de agência, assessoria etc.) não tenha suas próprias regras estabelecidas. Isso porque eles em geral são bem completos em relação a diversas situações, como a questão da grafia de numerais, como já mencionei.

Portanto, o que quero dizer é: não é um problema usar esses conhecidíssimos manuais, desde que se mantenha o senso crítico. Meu conselho é que eles não sejam usados como manual de redação e estilo. No entanto, se for preciso adotar padrões, eles podem ser úteis caso a empresa não tenha essas regras próprias definidas.

Quando adotar um manual próprio

Quem já abraçou a empreitada de escrever um manual de redação e estilo sabe quão ingrata pode se tornar a tarefa. Se você resolver documentar cada partezinha dos textos, o manual nunca estará satisfatório, pois a cada dia aparecerão novos casos e o trabalho não terá fim. Para termos uma ideia, Eduardo Martins, autor do Manual de Redação do Estadão, dedicou 37 anos ao ofício de edição de textos no jornal, o que lhe permitiu registrar, aos poucos, os “erros mais comuns” e os padrões necessários.

Você não precisa reinventar a roda, longe disso. O ideal é que sejam documentadas apenas as maiores particularidades adotadas pela empresa (que provavelmente caberão em duas páginas de Word), deixando questões gramaticais a cargo de dicionários e gramáticas específicos (por exemplo: dicionário de consulta – Houaiss; gramática de consulta – Cunha e Cintra; esses materiais deverão ser de conhecimento de toda a equipe e estar à disposição dela). Outro ponto é que, como falei, já existem muitos manuais. O que você pode fazer é complementá-los de acordo com seus usos.