Se você é revisor de texto, já deve ter ouvido poucas e boas sobre seu trabalho. Um dos clássicos é a cara de indagação que vem logo após você dizer que ganha a vida corrigindo textos dos outros. Se você não é revisor, talvez já tenha coçado a cabeça e feito cara de paisagem quando alguém disse: “Ah, eu reviso textos…”.

A cena é quase sempre a mesma:

— Com o que você trabalha?

— Sou revisora de textos. 😊

— Desculpa a pergunta, mas o corretor do Word já não faz isso?

— 😞

Revisor só serve para “pegar” erro de digitação

Muito embora não seja a única atribuição do revisor perceber erros de grafia nas palavras, esse tipo de problema tem grande peso no nosso trabalho. Isso porque geralmente é o que mais chama a atenção de quem está lendo o texto. Nem sempre o leitor, por exemplo, será grande conhecedor de pontuação, ou uso dos pronomes anafóricos e catafóricos, mas vá deixar uma síbala errada passar…

Talvez seja interessante repetir aqui: nosso cérebro é um grande enganador! Ele é uma grande máquina de interpretações e generalizações. E a forma como pessoas letradas leem prioriza a captação da palavra como um todo em vez de sílaba por sílaba, letra por letra. Em geral, nós lemos por blocos, reconhecendo apenas partes de palavras. Isso já é suficiente para passarmos batidos pelos erros de grafia.

Fechados os parênteses do parágrafo anterior, peço que não me entendam mal: sou grande entusiasta da tecnologia, inclusive no que diz respeito a automatizações relacionadas à linguagem. Já existem inclusive ferramentas de correção bastante sofisticadas, o que infelizmente ainda não é realidade na língua portuguesa, tampouco no Microsoft Word.

A seguir, tento explicar da forma mais simples que encontrei como o apoio do verificador automático pode nos ajudar quando estamos escrevendo e revisando textos.

Dois tipos de erros de grafia

Existem dois tipos de erros quando falamos de erros na escrita das palavras: aqueles que formam palavras que não existem e aqueles que formam palavras que existem, mas estão colocadas no lugar de outras cujo significado era o pretendido.

Coloquemos isso em exemplos.

Um erro que produz uma palavra inexistente é o mais simples, o chamado erro tipográfico ou de digitação. Por exemplo, você queria escrever “meia”, mas digitou “mwia”, que não existe em português.

Já um erro que produz uma palavra existente é um tanto mais complexo e depende de contexto; ele pode surgir tanto por desconhecimento da língua quanto por descuido de digitação. Por exemplo, você gostaria de escrever “perfeito”, mas acabou por digitar “prefeito”, ou escreveu “assento” quando se referia a “acento”.

Enquanto eu digito esses exemplos, fica clara a habilidade do Word em reconhecer palavras que não existem em seu dicionário; “mwia” tem a clássica marcação em vermelho abaixo de si, já “prefeito”, claro, não recebe marcação alguma.

De acordo com Panko, nós humanos somos bons em reconhecer “não palavras”, pois conseguimos detectar em média 90% desses erros em um texto. Já para erros que formam palavras descontextualizadas, nossa taxa de sucesso cai para 75% em média.

As máquinas, por sua vez, em geral conseguem captar todos os erros que formam palavras inexistentes (de acordo com o próprio dicionário), mas falham na detecção de erros que precisam de contexto para correção. (O que vem avançando, no entanto, graças às pesquisas de processamento de linguagem natural por máquina.)

Em resumo, temos o seguinte cenário: corretores automáticos têm desempenho parecido com o nosso ou melhor na detecção dos erros que nos são mais fáceis, mas têm desempenho inferior no que diz respeito aos erros que nós também temos alguma dificuldade em ver.

E ainda temos os falsos positivos

Quando falo que a pessoa deve conhecer bem as regras gramaticais para poder se beneficiar de verificadores ortográficos, minha preocupação recai principalmente sobre os falsos positivos.

Trabalhando diariamente com o Word, verificamos uma proporção grande de casos em que ele aponta usos corretos como incorretos em comparação ao que ele detecta acertadamente.

Veja as contribuições sobre esses casos, muitas delas hilárias, que recebi no Facebook:

Talvez, como revisor, você esteja neste momento pensando que o melhor mesmo é desativar tudo e ir “na unha”. Não é o caso. Você revisor, mais que ninguém, provavelmente é a pessoa que melhor tira proveito da ferramenta por ter conhecimento suficiente para reconhecer quando ela está ajudando ou quando só gerou um resultado equivocado.

Cuidados ao usar o corretor

  1. Tenha sempre em mente que a verificação é bem pouco baseada em contexto (nas versões mais atuais – 2013/2016 – do software; já em versões antigas, provavelmente nenhum contexto é levado em consideração).
  2. Se você não tem grandes conhecimentos ortográficos, é possível que, ao aceitar todas as sugestões, sejam introduzidos mais erros que acertos no texto.
  3. Se estiver em dúvida sobre alguma correção, pesquisar em fontes confiáveis é sempre uma boa saída.
  4. A tendência é que essa verificação melhore cada vez mais rápido, não há como negar.
  5. Se estiver escrevendo ou editando materiais que usem termos específicos, possivelmente todos eles serão marcados como erros.

Corretor do Word — veredito

A cena que narrei no início do post quase sempre vem seguida de:

— Poxa, mas sempre confiei nas correções do Word!

E costumo responder que até não é problema confiar, contanto que pelo menos estas duas premissas sejam seguidas:

  1. Que o texto não seja para publicação profissional.
  2. Que a pessoa conheça bem as regras gramaticais.

O problema é que o item número 1 é fácil de cumprir, já o número 2 é quase um paradoxo. Digo quase porque quem conhece bem as regras gramaticais consegue usá-lo da maneira correta, que é um apoio ao que os olhos não veem durante a leitura.

Dito isso, não acho que seja o caso de desativar tudo e revisar como se a tecnologia não ajudasse. Aprender a usá-la a seu favor é ainda a saída mais inteligente.